Ele encolhe-se em sua cadeira, já havia chorado muito hoje. Rogou, clamou, gritou. Mas ainda não sentia o conforto prometido. Lutou até o fim e tudo se desmanchou em suas mãos. Via-se sozinho.

De olhos fechados, um calor envolveu-o, sua alma parecia aliviada. Era como se alguém lhe dissesse que tudo ia ficar bem sem que ele ouvisse uma só palavra. Fazia muito tempo que não se sentia seguro como agora. Ele sentiu O Pai. A solidão desapareceu, a angústia já não existia. Tudo ia mal, mas ele finalmente se sentia bem.

Ao abrir os olhos novamente, viu-se abraçado por um irmão de sua igreja. O irmão começou a orar por ele e cada palavra era exata, certeira. Era o que ele precisava. Como? O irmão começou a falar e a ler alguns trechos da Bíblia para ele. Não eram as respostas que ele queria, mas ele sentia cada vez mais paz a cada fonema pronunciado pela boca de seu irmão.

Como? Como um abraço representou sua cura? Ele já havia cumprimentado muita gente. Abraços nunca foram seu ponto forte. Sempre pensou que apenas pessoas melosas e sensíveis precisavam disso. Nunca se sentiu confortável em um abraço. Mas dessa vez, Ele sentiu O Pai, O Amigo.

Caro leitor, certamente um abraço superficial não possui esse poder.  Mas, abraços fraternos são verdadeiros scanners e funcionam como medicamentos para nossas almas.

Na sociedade contemporânea, tudo tende a ser superficializado. Nossas relações humanas são mais fracas, nossas amizades mais temporárias. Tudo se passa muito rápido. Nossos gostos e modos estão sob constante metamorfose. Para que a mudança não seja tão dolorosa, temos a tendência de não querer construir laços profundos.

Não estou lhe dizendo para criar afeto pelo que é mundano, afinal, já que nossa pátria é celestial (Hb 11:14-16), não somos deste mundo (Jo 17:16) e não podemos nos conformar a ele (Rm 12:2). Estou lhe dizendo para não ser superficial para com as pessoas e não se tornar igual a essa sociedade de sorrisos capengas e vidas sem rumo. Cristo foi profundo. Ele compadecia-se das pessoas (Mt 9:36, Mc 6:34, Lc 7:13) e elas sentiam Sua empatia, Sua simplicidade. Da mesma forma, você também pode se tornar mais profundo em seus relacionamentos.

Se o homem fosse criado para ser forte por si só, sem que dependesse de outros, não haveria razões para a criação do casamento ou da igreja (Gn2:20-23; 1Co12:12-28). O homem foi criado para viver de modo coletivo, para que os momentos difíceis e os gozos da vida fossem compartilhados.

Assim que há o nascimento, já é estabelecido um ajuntamento, uma família. Assim que os estudos iniciam-se, a criança insere-se em uma turma, assim como na universidade. No trabalho há as corporações e grupos de tarefas. De modo geral, uma pessoa precisa de outras pessoas.

Da mesma forma, nossa comissão de ser ministros de Cristo (1 Co 4:1), demonstra nossa necessidade de estar com outras pessoas e de viver relacionamentos mais profundos. Somos indivíduos que possuem o dever de levar a suficiência de Cristo aos abatidos desse mundo que vivemos. Portanto, é incoerente com o propósito pelo qual viemos ao mundo prezar apenas pelos nossos interesses pessoais, sem nos importar com outros e sem lhes oferecer um relacionamento com profundidade.

O carinho e o afeto podem ser o abrir das portas para que uma pessoa ouça o falar do Senhor. Ao abraçar alguém, você expõe as áreas frágeis de si para o outro. Um abraço faz as armaduras caírem, cede a defesa do espaço individual. Logo, o discurso de estar bem pode cair em instantes. Nesse encontro de almas e corações, é possível que o outro sinta seus medos e você os dele. Nesse ínterim, o Deus que está em você pode atingi-lo e resgatar o coração que está ferido.

O Senhor não promete um mundo ausente de aflições, Ele promete consolo e conforto (Jo 16:33). Sabe quem deve fazê-lo? Nós!

“É ele que nos conforta em toda nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus”. (2 Co 1:4)

Se Deus escolheu usar você, não tema, não negue um abraço de Cristo para as pessoas.

Se o seu abraço pode ser o oásis em meio a esse deserto repleto de tempestades de areia, um clima nada agradável e ventos fortes, então, por que você escolheria reter seu carinho e ser mais um monte de areia?

Acredite, sei como pode ser difícil dar um abraço. Fiz um compromisso de abraçar 5 pessoas por dia há algum tempo, mas desisti no terceiro dia.

Minha esperança é que temos o Espírito de um Cristo amoroso dentro de nós. E Ele não somente tem amor, Ele é amor. O caminho é orar pedindo para que o Senhor troque nosso coração de pedra por um de carne (Ez 36:26). Para que ele troque nossos falatórios e acusações por acolhimento e amor para com os que passam por nossas vidas.

Caro leitor, oremos para que o Senhor nos torne mais sensíveis, simples e para que nossas fortalezas sejam demolidas. Nós precisamos ser esse caminho aberto e o conforto dos que estão ao nosso redor. Assim, essa caminhada cristã não será fácil, mas o fardo será mais leve se for carregado por mais de um.

Nessa perspectiva, o Amor pode modificar nosso comportamento e a tristeza que se vislumbra em nossas faces pode ser substituída pela paz de um abraço dado ou recebido.

Um grande abraço, que Deus nos abençoe!       

“Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam”  (At20:37)

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