Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles (Lc 24:29)

 

Ah! A morte. A consequência do pecado, o fim de todas as coisas, a única certeza de muitos, o último inimigo a ser derrotado. Com que frequência encaramos esse fato? Muitas vezes apenas paramos para refletir quando perdemos alguém próximo ou presenciamos algum acidente ou algo trágico. Mas a realidade é que a vida tem seu ciclo: nascemos, crescemos, amadurecemos, envelhecemos e morremos. O apóstolo Paulo dizia que seu viver era Cristo, e que morrer lhe seria lucro. Em sua carta à igreja em Filipos, ele declara que “partir e estar com Cristo” seria “incomparavelmente melhor”, mas que, por causa dos irmãos e irmãs da igreja ali, era necessário que ele ainda permanecesse vivo (Fp 1:20-24).

Nem todos encaram a morte de peito aberto como Paulo: poucos tem a sua confiança. O ser humano tende a ter medo do desconhecido e do que não compreende, e nada há mais misterioso do que o Além. Creio que esse era o mesmo sentimento de Henry Francis Lyte, pastor anglicano que compôs o hino Abide with Me, que conhecemos em português como Comigo habita. Nascido em Kelso, Escócia, em 1793, Lyte planejava originalmente estudar medicina após graduar-se na Trinity College de Dublin. Entretanto, terminou por consagrar-se ao sacerdócio e servir ao Senhor por mais de 24 anos em diversas paróquias do Reino Unido, juntamente com sua esposa Ann. Em 1844, aos 51 anos de idade, Lyte foi diagnosticado com tuberculose, notícia que não deve ter lhe causado surpresa, pois sempre tivera uma saúde debilitada. Como era de costume na época, Lyte frequentemente viajava para regiões mais quentes para fugir do ar frio e úmido das ilhas britânicas. Em uma viagem com destino à Itália, enviou à sua esposa uma cópia de Comigo habita revisada. Poucos dias depois, Jesus o tomou para Si enquanto Lyte descansava num hotel na Riviera francesa.

O hino, frequentemente cantado à melodia Eventide, composta por William Herny Monk, debutou no funeral de Lyte. Desde então, a canção percorreu o mundo, consagrando-se como um dos hinos favoritos de muitos, incluindo os monarcas ingleses George VI e Elizabeth II e o pacifista Mahatma Gandhi. Relatos contam também que, enquanto o Titanic afundava, Abide with Me foi um dos hinos tocados pela banda do transatlântico para tentar acalmar a tripulação em meio ao caos do naufrágio. Hoje em dia, para além das quatro paredes dos templos, Comigo habita é tocado sempre antes das finais das Copas da Inglaterra de Futebol e de Rúgbi League, além de ter sido cantado pela escocesa Emeli Sandé na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. A canção figura também em diversos funerais e ocasiões de lembrança, como em 21 de setembro de 2011, em homenagem aos mortos no ataque ao World Trade Center.

A primeira estrofe desse hino, um dos meus favoritos, remete ao versículo no topo do post, o qual menciona a passagem em que os discípulos desciam para Emaús, tão desconsolados pela morte do Senhor Jesus e que não reconheceram o próprio Mestre que se juntou a eles no caminho. Quando chegaram ao seu destino, eles Lhe rogaram: “fica conosco”. É interessante notar como Lucas registrou essas duas simples palavras no discurso direto, duas palavras que compõem uma oração inteira. Lyte transformou esse versículo em súplica no seu leito de morte: “Comigo habita”. É essa mudança de pronome que dá ao hino o íntimo conforto emocional que sentimos ao cantá-lo. A seguir dispomos a letra original, a tradução livre em português e a versão do Hinário da Editora Árvore da Vida, nº. 187:

ABIDE WITH ME

1.Abide with me; fast falls the eventide;

The darkness deepens; Lord with me abide.

When other helpers fail and comforts flee,-—————————————————————————–

Help of the helpless, O abide with me.

2.Swift to its close ebbs out life’s little day;

Earth’s joys grow dim; its glories pass away;

Change and decay in all around I see;

O Thou who changest not, abide with me.

3.Come not in terrors, as the King of kings,

But kind and good, with healing in Thy wings,

Tears for all woes, a heart for every plea—————————————————————————–

Come, Friend of sinners, and thus bide with me.

4.I need Thy presence every passing hour.

What but Thy grace can foil the tempter’s power?—————————————————————————–

Who, like Thyself, my guide and stay can be?

Through cloud and sunshine, Lord, abide with me.

5.I fear no foe, with Thee at hand to bless;—————————————————————————–

Ills have no weight, and tears no bitterness.

Where is death’s sting? Where, grave, thy victory?
—————————————————————————-

I triumph still, if Thou abide with me.

FICA COMIGO

1.Permanece comigo; rápido cai a noite,

A escuridão se aprofunda; Senhor, fica comigo.

Quando outros ajudantes falharem e outros confortos fugirem,

Amparo dos desamparados, oh! fica comigo.

2.O curto dia da vida termina rapidamente;

Alegrias da terra se ofuscam, suas glórias passam;

Mudança e decadência vejo em toda a volta;

Ó Tu que não mudas, fica comigo.

3.Vem, não em terrores, como o Rei dos reis,

Mas gentil e bom, com cura em Tuas asas,

Com lágrimas para todos os males, um coração para cada apelo –

Vem, Amigo dos pecadores, e fica comigo.

4.Preciso de Tua presença a cada hora que passa.

Que pode, além da Tua graça, frustrar o poder do tentador?

Quem, além de Ti, poderia ser meu guia e esteio?

Faça chuva ou faça sol, Senhor, fica comigo.

5.Não temo nenhum inimigo, se estás pronto para abençoar;

Males não pesam, e lágrimas não amargam.

Onde está o aguilhão da morte? Sepultura, onde está tua vitória?

Ainda triunfarei, se ficares comigo.

HINO n° 187 – ANELOS – POR COMUNHÃO COM CRISTO

COMIGO HABITA

1. Comigo habita, pois a noite vem;
As trevas crescem, o temor também.
És meu Amparo quando os outros vão;
Faz, ó Senhor, em mim habitação.

2.A vida é curto dia que se esvai,
Tudo é ruína, tudo passa e cai;
Prazer e glória breve findarão,
Faz-me, pois, Tua eterna habitação.

3.Vem, não qual Rei dos reis em Teu terror,
Mas bom e manso, qual Sol curador,
Mui compassivo, atento à petição,
Faz, ó Amigo, em mim habitação.

4.Tua presença busco, ó Senhor,
Só Tua graça anula o tentador;
Quem me seria esteio e direção?
Faz todo o tempo em mim habitação.

5.Não temo inimigos, pranto ou dor,
Se Tua bênção perto está, Senhor;
A morte já não tem seu aguilhão!
Venço, pois tens em mim habitação

Já na primeira estrofe o autor usa a noite como metáfora para a morte. Para ele, doente, ela chegaria rapidamente e não havia quem o pudesse ajudar: a tuberculose não tinha cura. Entretanto, Lyte apela para o Único que pode ser Amparo para os desamparados. Na segunda estrofe, ele compara a brevidade e decadência da vida com a eternidade e perenidade da presença de Deus. Sentimos claramente que Lyte conhecia sua situação como ser humano pecador e cheio de impurezas na estrofe 3, na qual clama para que, quando partir, não vá ao encontro do justo Rei dos reis, mas do Amigo, Daquele que comia e bebia com pecadores. O compositor continua sua súplica na estrofe seguinte, onde, embora já no final da vida e, provavelmente amadurecido, ainda necessitava desfrutar do evangelho da graça de Deus.

É na quinta estrofe que percebemos a força e a coragem infundidas ao suplicante para enfrentar o desafio que tem lá: se há a bênção do Senhor por perto, nada há que temer, nem mesmo a morte! A última estrofe do hino, que não temos em português, é o amém dessa linda e tocante oração. Dá até pra imaginar o Pr. Lyte deixando esta terra e correndo em direção aos braços do Senhor.

5.Hold Thou Thy cross before my closing eyes;—————————————————————————————————————-
Shine through the gloom and point me to the skies.—————————————————————————-
Heaven’s morning breaks, and earth’s vain shadows flee;—————————————————————————-
In life, in death, O Lord, abide with me.
5.Segura Tua cruz diante dos meus olhos que se fecham;
Brilha através da escuridão e indica-me a direção dos céus.
A manhã celeste já vem, e as vãs sombras terrenais fogem;
Na vida ou na morte, ó Senhor, fica comigo.

E você, jovem? A morte pode parecer algo distante. Pode parecer que ainda há muito a ser vivido, a ser sonhado, a ser experimentado. Você deve ter seus planos, seus desejos, e talvez nunca tenha parado para pensar como se sente um tuberculoso à beira da morte. Mas, na verdade, essa figura representa bem a existência humana. Pedro diz em sua primeira epístola que “Toda carne é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e cai a sua flor” (1:24). Lyte aproveitou a sua juventude para servir ao Senhor e pôde, ao chegar o fim da vida, encarar a morte de frente, como um encontro ao seu Amado Senhor.

Não perca tempo! Aproveite hoje! Viva hoje! Tenha experiências com o Senhor hoje! A vida passa rápido, ela é como um curto dia que se esvai. Colha o dia na presença de Deus, ainda que durante todo o tempo você tenha que clamar pelo auxílio Daquele que é o nosso Amparo, do Imutável, do Amigo dos pecadores. Lembre-se de que, quando os discípulos pediram, Jesus “entrou para ficar com eles” (Lc 24:29). Que o Senhor possa sempre ficar com você!

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