Em algum ponto da minha adolescência, decidi que não me deixaria levar pelos meus sentimentos, e nem ser tomada por eles. Essa foi uma decisão que tomei após algumas decepções, e que resultou, por um lado, na formação de boa parte da identidade que tenho hoje, além de me ajudar a assumir uma postura firme diante das emoções negativas. Mas, por outro lado, passei a quase que anular meus sentimentos e priorizar a razão em minhas decisões.

Embora possamos ver várias coisas da vida por dois lados, quando vejo minhas experiências, até entender o perigo de uma vida meramente racional, percebo que foram essas experiências que me trouxeram até este ponto! E são o motivo de eu ser quem sou hoje.

Quem, ou como, eu seria se tivesse exaltado ou priorizado mais meus sentimentos, é algo impossível de saber. Mas por todo o trabalhar do Senhor em tudo o que venho passando, hoje sou grata pelas experiências que tive.

Lendo alguns textos devocionais na Bíblia da Mulher da SBB, encontrei um tópico de aplicação prática sobre Cura Emocional: 

“[…] Quando uma pessoa sente vergonha de suas próprias reações emocionais, como medo ou ira, sua tendência é procurar se proteger impedindo que essas reações cheguem ao nível consciente. Esse mecanismo a torna incapaz de expressar suas emoções de maneira saudável e, uma vez que elas são inter-relacionadas, a negação de emoções dolorosas exige que as agradáveis também sejam reprimidas. O resultado, com frequência, é um torpor emocional[…]”.

O texto também ressalta que devemos identificar nossas emoções e canalizá-las positivamente. É importante entregar memórias ruins ao Senhor para que Ele providencie cura e restauração.

Se creio na soberania de Deus posso experimentar paz e contentamento no lugar de medo e preocupação. Deixar de lidar com as emoções não apenas pode me fazer mal como também limita o agir de Deus em meu crescimento e pode reduzir minha compreensão do caráter de Deus. 

Um dos piores golpes

Abafar sentimentos, e me culpar por senti-los, me levou a encontrar formas de fugir da realidade e construir muros a minha volta. Muros tão altos que eu já nem notava que estavam ali.

Não me permitia descansar verdadeiramente, mentia para mim mesma dizendo que não havia tempo para isso. Ocupava minha mente com entretenimento, ou com atividades, e a ilusão de uma produtividade sem fim. Não estou dizendo que não devemos buscar estas coisas, mas o excesso mostra que algo não está saudável. 

No meu caso, mostrava que estava fugindo da verdade: eu não sabia como lidar com as emoções e também não me permitia senti-las. Percebi todas as consequências que isso me trouxe neste ano, em que muita coisa aconteceu e continua acontecendo de forma intensa e estou sempre precisando voltar ao eixo o mais rápido possível. Me via como alguém em um ringue, com o adversário desferindo um golpe atrás de outro, e que, sem conseguir levantar, prefere ser atingido no chão.

Há poucos dias, recebi um dos piores golpes deste “adversário”: a perda da minha bisavó. Um dos golpes que temia muito, pois não estaria preparada. Pelo menos era o que pensava. Diante da dor de perder uma pessoa tão querida, não via outra maneira de honrá-la, a não ser trazer à memória todas as lembranças do que vivemos e me permitir sentir sua falta. 

No mesmo dia em que soube da morte da minha bisavó, li em um devocional: “Um dos maiores obstáculos para a alegria é nossa incapacidade de lidar com emoções negativas”. Tentar adormecer nossas emoções negativas só dá mais força aos estressores. “Precisamos nos apegar a verdade de que a alegria está no outro lado de enfrentarmos nossas emoções(…) A sua profunda tristeza se tornará alegria”. (Alegria sobre o Estresse: como criar um hábito de alegria diária, Neal Samudre)

Fica cada vez mais claro pra mim (embora eu precise relembrar com frequência), que o Senhor não nos dá batalhas que não possamos lutar (cf. 1 Co 10:13). Muitas vezes contamos apenas com nossa capacidade limitada, tirando Aquele que tem poderes ilimitados do nosso lado. Aquele que é capaz de aliviar nossos fardos e carregá-los por nós (Mt 11:28; Sl 68:19; 1 Pe 5:7). O poder de Deus só será real para você até que o experimente, até que conheça quem o possui. 

“Transformaste meu pranto em dança; tiraste minhas roupas de luto e vestiste de alegria” (Sl 30:11 NVT) 

Passando pelas tempestades com esperança

A Bíblia nos ensina a identificar e lidar com nossas emoções, não a ignorá-las ou intensificá-las. Seja nos cânticos dos salmistas, nas palavras de sabedoria ou nas lamentações no Antigo Testamento, ou na experiência de Cristo na terra (Hb 12:2), testificamos que o choro pode durar toda a noite, mas a alegria vem com o amanhecer (Sl 30:5 NVT). É preciso passar pela chuva e crer que logo depois dela vem a prova da aliança de Deus com o homem. É necessário enfrentar a tristeza da noite, para desfrutar da fidelidade e das misericórdias do Senhor que se renovam a cada manhã (Lm 3:22-23).

Alegre-se no Senhor (Fp 4:4), persevere em oração (Rm 12:12) e creia que a alegria do Senhor é a sua força (Ne 8:10). Pois a bondade e o amor te seguirão todos os dias de sua vida (Sl 23:6 NVT). E que você, querido leitor, fique transbordante da alegria de Cristo (Jo 15:11).

“Que Deus, a fonte de esperança, os encha inteiramente de alegria e paz, em vista da fé que vocês depositam nele, de modo que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo”. (Rm 15:13 NVT)

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