Traduzido de God Moves in a Mysterious Way: Hope for the Hard Years Ahead, de Scott Hubbard, publicado no Desiring God.

O dia de ano novo em 1773 marcava uma década desde que a depressão quase arrebatou a vida de William Cowper.

A agonia mental o torturava severamente por dez invernos antes que ele fosse internado no sanatório de St. Albans após uma tentativa de suicídio. Enquanto estava lá, ele encontrou uma Bíblia que o diretor cristão do asilo havia deixado estrategicamente aberta. Seus olhos caíram sobre Romanos 3:23–26, e a glória de Jesus Cristo expulsou as sombras de sua alma.

Mas, no início de 1773, golpes sucessivos deixaram Cowper estarrecido. Seu irmão morrera em 1770, seguido por dois de seus primos no ano seguinte. Em 1772, os sussurros dos vizinhos sugeriam que o relacionamento de Cowper com a proprietária do lugar onde morava não era nada inocente. A dor e a calúnia logo se juntaram em nuvens escuras demais para sua sanidade. E, assim, enquanto caminhava pelos campos após o culto há 247 anos, Cowper “foi atingido por uma terrível premonição de que a maldição da loucura estava prestes a cair sobre ele novamente” (John Newton: From Disgrace to Amazing Grace, p. 217).

Porém,antes que a noite caísse sobre a alma de Cowper, ele se sentou à luz de sua sanidade remanescente, pegou sua caneta e escreveu um hino que fortaleceu gerações de santos aflitos através de suas respectivas sombras.

Renovai a coragem

O hino de Cowper, “Deus se move de forma misteriosa”, é uma canção para todo santo que está próximo de seu limite. É um guia para todos que não veem novas esperanças surgindo no horizonte do novo ano. É uma confissão de fé diante das trevas – que cintila com luz suficiente para nos levar através de quaisquer “meia-noites” que este ano trouxer.

No coração do hino, há uma simples exortação: “Vós, santos medrosos, renovai a coragem!” Renove a coragem. Renove a coragem quando as nuvens vierem trovejando em sua direção. Renove a coragem quando os próximos dias parecerem cobertos de sombras. Renove a coragem quando não conseguir entender os caminhos de Deus.

Mas por que, perguntamos no vale, devemos ter coragem? Durante todo o resto do hino, Cowper dá suas razões.

1. Deus se move de forma misteriosa

 

Deus se move de forma misteriosa

Para realizar suas maravilhas;

Ele imprime suas pegadas no mar,

E cavalga sobre a tempestade.

 

Enquanto Cowper escrevia seu hino, os caminhos de Deus o confundiam. O Deus que resgatara Cowper da tempestade da instabilidade mental, agora o mandava de volta, para onde Cowper sentiria que estava “escalando sempre nas trevas, entre rochas e precipícios, sem guia, mas com um inimigo sempre atrás de mim, preparado para me lançar abaixo ”(Letters and Prose Writings, IV: 234). Podemos entender por que ele começou seu hino com a famosa frase “Deus se move de maneira misteriosa”.

Mas para Cowper, “Deus se move de forma misteriosa” era uma declaração de fé, não de desespero. Cowper sabia, pelas Escrituras, que Deus raramente realiza suas maravilhas em terras de conforto e facilidade. Com maior frequência, Deus livra seu povo de um problema apenas para levá-lo a outro: Ele nos livra do Egito e depois nos leva às margens do Mar Vermelho (Salmos 77:19). “Ele imprime suas pegadas no mar e cavalga sobre a tempestade.”

Não fique desanimado quando os caminhos de Deus o confundirem. Em vez disso, tenha coragem. Lembre-se com Cowper que você está na companhia de muitos santos confiantes. Você está andando com Abraão e Sara, esperando décadas por um filho (Gênesis 17: 15–21). Está viajando com Davi pelo vale das sombras (Salmo 23: 4). Você está com Jeremias, assistindo Jerusalém arder em chamas (Jeremias 21:10). Está deitado com João Batista embaixo da espada do carrasco (Mateus 14: 1–12). Você está chorando com Maria Madalena fora da tumba de Jesus (João 20: 11–15).

Não precisamos entender tudo o que Deus está fazendo quando nos encontramos no meio de seus caminhos misteriosos. No final, Deus mostrará que seus caminhos, tão acima dos nossos (Isaías 55: 8), eram, no entanto, perfeitos (Salmo 18:30). “Deus é seu próprio intérprete”, Cowper nos lembra mais adiante no hino. E quando for a hora certa, “Ele deixará claro”.

2. As nuvens que você teme estão cheias de misericórdia

 

Vós, santos medrosos, renovai a coragem!

As nuvens que tanto temeis,

São grandes  em misericórdia, e irromperão

Em bênçãos sobre vossas cabeças.

 

Cowper não subestimou a angústia da depressão ou de nenhuma de nossas outras aflições. Ele não afirmou que, por causa de Cristo, os filhos de Deus caminham sem sentimentos pelos espinhos deste mundo amaldiçoado. Ele estava disposto a escrever, em uma carta a um amigo, que a depressão o levara à “barriga deste inferno, comparado com o qual, o de Jonas era um palácio, um templo do Deus vivo” (Letters and Prose Writings, II: 83).

No entanto, o hino de Cowper faz mais do que dar voz à nossa agonia. Também nos dá os olhos da fé para olharmos para as nuvens de tempestade de nossas tristezas, não importa quão temíveis sejam, e reconhecê-las como as mensageiras da misericórdia de Deus.

Nuvens temíveis nunca são o horizonte final para o povo de Deus. No final, o casal estéril segura um bebê nos braços (Gênesis 21: 1–3). O sol nasce sobre o vale da sombra (Salmo 23:6). Jerusalém ouve novamente o som de uma canção (Isaías 62:1–5). O mártir acorda com um corpo ressuscitado (1 Coríntios 15:53–55). A pedra rola para fora da tumba (João 20:16–18).

Tenha coragem. As nuvens que o cobrem este ano podem ser mais escuras do que qualquer uma que você já tenha conhecido. Elas podem demorar muito para passar. Elas podem parecer apagar o sol. Mas Deus sabe como dissipar até mesmo essas nuvens, e, através delas, opera maravilhas tão admiráveis, tão inesperadas, que nos deixam de joelhos em adoração.

3. Os propósitos de Deus amadurecem rapidamente

 

Seus propósitos amadurecerão rapidamente,

Desvendando-se a cada hora;

O botão pode ter um gosto amargo,

Mas a flor será doce.

 

No final do hino, Cowper nos deixa com uma segurança: os propósitos de Deus “amadurecerão rapidamente”. Muito em breve, o sol espalhará essas temidas nuvens, e permaneceremos na terra seca da bondade de Deus com alegria eterna em nossos corações.

No momento, é claro, o “rapidamente” de Deus pode parecer como mil anos (2 Pedro 3:8). A depressão que caiu sobre Cowper em 1773 o cobriu até sua morte em 1800 – uma escuridão de 27 anos. John Newton, em seu sermão fúnebre para Cowper, pregou a partir da passagem sobre a sarça ardente (Êxodo 3: 2–3), porque, como ele disse, Cowper “foi de fato uma sarça em chamas por 27 anos”.

Podemos dizer que 27 anos de chamas foram uma aflição rápida? Somente se, com Cowper, colocarmos 27 anos diante de 27 milhões de anos e permitirmos que a eternidade ajuste nossas escalas. Do ponto de vista da eternidade, nenhuma calamidade pode acontecer conosco este ano que não seja uma “leve e momentânea tribulação [que] produz para nós um peso eterno de glória” (2 Coríntios 4:17). No momento, provamos apenas o botão amargo. Em breve, veremos que o solo do céu sabe como transformar cada botão em uma flor cuja beleza não podemos imaginar.

Mais tarde, em seu sermão fúnebre, Newton concordou com o senso de “rápido” de Cowper. “Ele foi um daqueles que saíram da grande tribulação”, disse Newton. “Ele sofreu muito aqui por 27 anos, mas a eternidade é longa o suficiente para reparar tudo.”

A eternidade é longa o suficiente para reparar tudo – todo o mal que caiu sobre nós até agora nesta vida e qualquer mal que caia sobre nós este ano. Então, renove a coragem. Hoje, estamos um ano mais perto da terra onde o céu está sempre limpo, onde as flores cobrem as colinas e onde cada rosto manchado de lágrimas sente o terno toque de Jesus Cristo.