Acredita-se que o livro de Eclesiastes tenha sido escrito (ou ditado) pelo rei Salomão. Há também a possibilidade de um editor ter compilado e organizado as falas do Pregador nesse livro. Fato é que o livro foi escrito antes da vinda de Jesus, em um período em que ainda não se tinha uma visão clara a respeito da ressurreição ou da vida eterna. Isso confere ao livro uma visão extremamente pessimista a respeito da morte, ao contrário do que nos é apresentado no novo testamento, com Paulo afirmando que desejava morrer para estar com Cristo (Fp 1:20-24). Apesar disso, o livro possui lições valiosas que nos incitam a viver uma vida mais sábia, humilde e coerente diante de Deus e dos homens. Nesta série exploramos os temas centrais do livro de Eclesiastes e tentamos mostrar como esse livro escrito há mais de dois mil anos continua atual.

O trabalho e os bens materiais no livro de Eclesiastes

A primeira reação, ainda que inconsciente, ao pensar num livro tão antigo dando conselhos sobre o trabalho é a arrogância de pensar que ele não tem nada a nos ensinar. Essa arrogância é justificável, afinal as relações de trabalho hoje são completamente diferentes, vivemos na era digital, do home-office, das empresas com áreas de lazer e de descanso. Entretanto, não há nada de realmente novo, como nos ensina Eclesiastes:

“A história simplesmente se repete. O que foi feito antes será feito outra vez. Nada debaixo do sol é realmente novo. […] Não nos lembramos do que aconteceu no passado, e as gerações futuras tampouco se lembrarão do que fazemos hoje.”

Eclesiastes 1:9,11 (NVT)

Comecemos, então, nossa discussão com um tema bastante atual: ansiedade e estresse.

O problema da ansiedade e estresse no trabalho

“O que as pessoas ganham com tanto esforço e ansiedade debaixo do sol? Seus dias de trabalho são cheios de dor e tristeza, e nem mesmo à noite sua mente descansa. Nada faz sentido.”

Eclesiastes 2:22-23 (NVT)

A ansiedade é conhecida como “o mal do século XXI”, mas já está presente há milênios na história da humanidade (a ansiedade é uma doença e deve ser tratada. Este texto não traz soluções ou o fim do problema, mas uma curta reflexão sobre o tema à luz da Bíblia). Ela pode possuir as mais variadas causas, sendo o trabalho e as preocupações com o sustento, causas recorrentes. Esforçamo-nos em nossos trabalhos e estudos, imaginando que o sucesso financeiro ou profissional pode nos trazer felicidade, mas nossos dias acabam se tornando cada vez mais tristes e dolorosos. O peso de termos de “vencer na vida” é esmagador. A responsabilidade de ter de garantir o nosso sustento e, em muitos casos, o de nossos familiares, somada ao medo de perder nossa fonte de sustento, tira o nosso sono. Gastamos todas nossas energias durante o dia e nem à noite conseguimos descansar.

Jesus também deu atenção especial ao tema, ao dizer no sermão do monte: “Por isso eu lhes digo que não se preocupem com a vida diária, se terão o suficiente para comer, beber ou vestir. A vida não é mais que comida, e o corpo não é mais que roupa? Observem os pássaros. Eles não plantam nem colhem, nem guardam alimento em celeiros, pois seu Pai celestial os alimenta. Acaso vocês não são muito mais valiosos que os pássaros? Qual de vocês, por mais preocupado que esteja, pode acrescentar ao menos uma hora à sua vida?” (Mt 6:25-27). Temos um Deus que cuida de nós e se preocupa conosco, nosso sustento na verdade não depende de nós, mas da misericórdia de Deus. Lembremo-nos disso sempre que formos tomados por sentimentos de ansiedade a esse respeito. Devemos sim nos esforçar, mas conscientes de que o nosso sustento não vem de nós, mas das mãos do Pai.

O autor também aponta outra causa de ansiedade no homem, dessa vez muito mais ligada ao nosso coração pecaminoso:

“Então observei que todo esforço e trabalho é motivado pela inveja que as pessoas sentem umas das outras. Isso também não faz sentido; é como correr atrás do vento. […] E, no entanto, ‘É melhor ter um punhado com tranquilidade que dois punhados com trabalho árduo e correr atrás do vento’.”

Eclesiastes 4:4-6 (NVT)

Esse trecho deve nos levar a refletir sobre nossa postura e nossas motivações. Por que me esforço em meu trabalho? Por que me esforço em meus estudos? Para honrar a Deus e ser grato ao que Ele me deu ou por pura inveja? O esforço para “dar o nosso melhor” é facilmente confundido com a necessidade de “sermos os melhores”. O desejo de superioridade e a arrogância são os piores motivos que podemos ter para nos esforçar em qualquer coisa que fizermos. Esses desejos são contrários à postura servil e à humildade que Cristo nos ensinou enquanto esteve aqui na Terra. Lembremo-nos sempre que devemos ser imitadores Dele (1 Co 11:1). É melhor ter uma vida simples e tranquila, com paz, que muitas riquezas e nenhum descanso.

O vazio do sucesso financeiro 

“Quem ama o dinheiro nunca terá o suficiente. Quem ama a riqueza nunca se satisfará com o que ganha. Não faz sentido viver desse modo! Quanto mais você tem, mais pessoas aparecem para ajudá-lo a gastar. Portanto, de que serve a riqueza, senão para vê-la escapar por entre os dedos? […]

Todos nós chegamos ao fim da vida nus e de mãos vazias, como no dia em que nascemos. Não levamos conosco o fruto de nosso trabalho. Isto também é um grande mal: as pessoas vão embora deste mundo como vieram. Todo o seu esforço é inútil, como trabalhar para o vento.”

Eclesiastes 5:10-11,15-16 (NVT)

O amor ao dinheiro por si só é um grande mal, por levar pessoas a cometerem loucuras, a contrariar seus princípios e seu próprio bem estar em troca de riquezas. Em sua primeira carta a Timóteo, Paulo afirma que “[…] aqueles que desejam enriquecer caem em tentações e armadilhas e em muitos desejos tolos e nocivos, que os levam à ruína e destruição. Pois o amor ao dinheiro é a raiz de todo mal. E alguns, por tanto desejarem dinheiro, desviaram-se da fé e afligiram a si mesmos com muitos sofrimentos.” (1 Tm 6:9-10, NVT). O autor de Eclesiastes vai além ao mostrar que a busca pelas riquezas é vazia em si mesma. Ele afirma que o dinheiro serve apenas para que o vejamos escapar pelos nossos dedos, e isso é inegável. Quer o veremos escapar em vida, gastando-o desmedidamente, quer na nossa morte, para a qual iremos nus e de mãos vazias. O nosso esforço por acumular riquezas é, em sua essência, inútil.

É importante dizer entretanto que o dinheiro em si não é criticado, mas nossa postura diante dele. Ele é importante, mas não vale nossa vida, nossa inteira dedicação. Uma vida em busca de cada vez mais riquezas é uma vida sem sentido, que nos impede mesmo de aproveitar o que temos. Que tenhamos uma postura sábia em nossa relação com o dinheiro, tanto na maneira que o buscamos, quanto no nosso motivo para fazê-lo.

“Aproveite o que você tem em vez de desejar o que não tem. Querer cada vez mais não faz sentido; é como correr atrás do vento.”

Eclesiastes 6:9 (NVT)

Eclesiastes: desfrutar do que Deus concedeu

[…] concluí que a melhor coisa a fazer é desfrutar a comida e a bebida e encontrar satisfação no trabalho. Percebi, então, que esses prazeres vêm da mão de Deus. Pois quem pode comer ou desfrutar algo sem ele?

Eclesiastes 2:24,25 (NVT)

O entendimento de que tudo vem da mão de Deus não apenas alivia nossas ansiedades, como também nos incita a desfrutar, a aproveitar daquilo que Ele nos deu. A busca por dinheiro encontra significado quando o aproveitamos, quando o usamos para fazer o bem, seja a nós mesmos, seja ao nosso próximo. Quando utilizamos o que Deus nos deu para o nosso prazer, o fazemos com Ele, pois ninguém pode desfrutar de nada sem Ele. Os prazeres vêm de Sua mão.

No capítulo três, o autor diz que “a melhor coisa a fazer é ser feliz e desfrutar a vida enquanto é possível. Cada um deve comer e beber e desfrutar os frutos de seu trabalho, pois são presentes de Deus.” (Ec 3:12-13). Como um pai que presenteia um filho e espera que este se alegre e use bem o presente recebido, Deus nos presenteia com os frutos do nosso trabalho e quer que nos alegremos com eles, que usemos bem. Ele é a fonte de tudo o que temos e desfrutar disso demonstra um coração grato por tudo que Ele nos concedeu.

Por fim, Deus nos deu não apenas bens materiais. Ele nos deu o nosso trabalho, e nos alegrarmos no nosso trabalho também é um presente de Deus:

“Ainda assim, observei pelo menos uma coisa positiva: é bom que as pessoas comam, bebam e desfrutem os resultados de seu trabalho debaixo do sol durante a vida curta que Deus lhes dá e aceitem a parte que lhes cabe. Também é bom receber de Deus riqueza e boa saúde para aproveitá-la. Alegrar-se com seu trabalho e aceitar a parte que lhe cabe na vida são, sem dúvida, presentes de Deus.”

Eclesiastes 5:18-19 (NVT)

Essa é uma questão muito importante. Por tudo que foi falado anteriormente, é possível que se pense que o trabalho é apenas sofrimento, ou um “mal necessário”. Essa visão é contrária ao que nos é apresentado em Eclesiastes. O trabalho nos é dado por Deus, e a possibilidade de nos alegrarmos nele é um presente da parte Dele.

Eclesiastes: trabalhar duro

“Semeie pela manhã e continue a trabalhar à tarde, pois você não sabe se o lucro virá de uma atividade ou de outra, ou talvez de ambas.”

Eclesiastes 11:6 (NVT)

Já no penúltimo capítulo do livro, o autor recomenda que nos esforcemos no trabalho. Que não nos contentemos em fazer o mínimo necessário, mas que “semeemos pela manhã e continuemos a trabalhar a tarde”. Devemos nos esforçar no nosso trabalho, nos estudos e no quer que façamos, porque fazemos para Deus, e não para homens (Cl 3:23).

É interessante observar que anteriormente ele havia criticado o esforço excessivo no trabalho. Isso mostra uma postura de incentivo ao equilíbrio no trabalho. Devemos nos esforçar, mas não a ponto de isso nos causar ansiedade, dor e sofrimento. Da mesma maneira, devemos nos alegrar com os bens que Deus nos dá, mas não podemos fazer a busca por eles nossos objetivos de vida.

Que tenhamos sabedoria em nossa relação com o trabalho e com o dinheiro! Espero que as reflexões apresentadas ajudem você de alguma maneira a repensar e ter uma relação mais saudável com o trabalho e com os bens materiais!



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