Eclesiastes é uma leitura peculiar. Sendo um livro de Sabedoria de Israel, seu autor não fala como um profeta transmitindo uma mensagem direta de Deus, mas observa e medita sobre a realidade, percebe seus problemas e ensina a viver bem diante de Deus. Tendo uma mensagem especialmente direcionada a jovens (Ec 12:1,6), ele ensina a depositar a confiança e encontrar alegria e sentido em Deus, não em projetos humanos. 

O vazio e repetição da vida humana

“Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” 

(Eclesiastes 1:2 – ARA).

Essa é uma frase repetida por várias vezes no livro. A palavra traduzida por “vaidade” é hebel, que também poderia ser traduzida como sopro, vapor, sem sentido, ou vazio.

O que as pessoas ganham com todo o seu árduo trabalho debaixo do sol? (…) Tudo é tão cansativo que não há como descrever. Não importa quanto vemos, nunca ficamos satisfeitos; não importa quanto ouvimos, nunca nos contentamos.”

(Eclesiastes 1:3,8 – NVT).

O mestre questiona o sentido do trabalho. Tudo é cansativo e não se encontra satisfação. A terra permanece. O ser humano, porém, passa. E o que ele alcança como resultado de seus esforços? 

O raciocínio sobre a canseira da vida continua:

“A história simplesmente se repete. O que foi feito antes será feito outra vez. Nada debaixo do sol é realmente novo. De vez em quando, alguém diz: “Isto é novidade!”. O fato, porém, é que nada é realmente novo. Não nos lembramos do que aconteceu no passado, e as gerações futuras tampouco se lembrarão do que fazemos hoje.

(Eclesiastes 1:9-11 – NVT).

Muito do que observamos na vida não é novidade. Na música, em movimentos políticos, na cultura em geral, há muitas coisas que parecem ser interessantes mas são esquecidas após alguns anos. E muitos erros do passado são repetidos no presente, pois o pecado permanece no ser humano. Diante dessa percepção, o que buscar? 

A busca pelos prazeres

Um pouco mais adiante, Eclesiastes fala sobre a busca pelos prazeres:

Disse a mim mesmo: “Venha, vamos experimentar o prazer; vamos procurar as coisas boas da vida!”. Descobri, porém, que isso também não fazia sentido. Portanto, disse: “O riso é tolice. De que adianta buscar o prazer?”. Depois de pensar muito, resolvi me animar com vinho. E, enquanto ainda buscava a sabedoria, apeguei-me à insensatez. Assim, procurei experimentar o que haveria de melhor para as pessoas em sua curta vida debaixo do sol.”

(Eclesiastes 2:1-3 – NVT).

A vida humana é curta. Eclesiastes reconhece esse fato, e se incomoda com isso. Então, qual deve ser nossa postura? Desfrutar dos prazeres enquanto se pode? Não é essa a resposta do Mestre. Ele experimentou os prazeres mais diversos, porém descobriu que eles também não poderiam satisfazer sua busca interior. Hoje, muitas pessoas acreditam que o propósito de suas vidas é a busca pelo prazer. Suas vidas são movidas por sensações. Elas estão fadadas a encontrar vazio. 

A busca pela glória humana

Há ainda uma busca mais sutil que nos cerca intensamente na atualidade. Talvez tenhamos percebido o problema de uma vida centrada em prazeres. Talvez queiramos algo mais “elevado”. Alcançar status, produzir grandes realizações para deixar nossa marca. Numa cultura de grande valorização da imagem (muitas vezes inventada), precisamos observar as palavras de Eclesiastes:

Dediquei-me a projetos grandiosos, construindo casas enormes e plantando belos vinhedos. Fiz jardins e parques e os enchi de árvores frutíferas de toda espécie. Tive muito gado e rebanhos, mais que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim. Juntei grande quantidade de prata e ouro, tesouros de muitos reis e províncias. Contratei cantores e cantoras e tive muitas concubinas. Tive tudo que um homem pode desejar! Tornei-me mais importante que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim, e nunca me faltou sabedoria”

(Eclesiastes 2:4-5, 7-8).

Ele conquistou tudo o que era mais nobre naquela época. Glória e riquezas. Tinha o reconhecimento dos homens. Ainda assim, não se sentiu satisfeito:

Tudo que desejei, busquei e consegui. Não me neguei prazer algum. No trabalho árduo, encontrei grande prazer, a recompensa por meus esforços. Mas, ao olhar para tudo que havia me esforçado tanto para realizar, vi que nada fazia sentido; era como correr atrás do vento” 

(Eclesiastes 2:10-11).

Muitas pessoas também vivem em busca da glória humana, riquezas, status, fama, estilos de vida admirados. Vivemos num mundo de muita construção de imagem nas mídias e as pessoas querem adotar estilos de outras. Mas isso também não atende às buscas mais profundas do coração humano.

Sabemos que não devemos buscar a glória do homem, a exaltação de nós mesmos, a ganância por riquezas e fama nessa terra. Nos gloriamos na Cruz de Cristo (Gl 6:14). Esta é a realização da qual mais nos alegramos por fazer parte. E não foi algo que nós alcançamos. Outro realizou e nos concedeu.

O apóstolo João alerta: 

“Não amem este mundo, nem as coisas que ele oferece, pois, quando amam o mundo, o amor do Pai não está em vocês. Porque o mundo oferece apenas o desejo intenso por prazer físico, o desejo intenso por tudo que vemos e o orgulho de nossas realizações e bens. Isso não provém do Pai, mas do mundo. E este mundo passa, e com ele tudo que as pessoas tanto desejam. Mas quem faz o que agrada a Deus vive para sempre.”

(1 João 2:16).

Assim como os prazeres desta vida, a glória de nossas atividades nesta terra, não devem possuir nossos corações. Essas coisas são passageiras e o amor do Pai é que deve cativar-nos.

A busca pela sabedoria humana

Então resolvi comparar a sabedoria com a loucura e a insensatez (pois quem pode fazê-lo melhor que eu, o rei?). Pensei: “A sabedoria é melhor que a insensatez, assim como a luz é melhor que as trevas. O sábio vê para onde está indo, mas o tolo anda na escuridão”. Apesar disso, vi que o sábio e o tolo têm o mesmo destino. Disse a mim mesmo: “Uma vez que terei o mesmo fim do tolo, de que vale toda a minha sabedoria? Nada disso faz sentido!”. Pois nem o sábio nem o tolo serão lembrados por muito tempo; ambos morrerão, e logo serão esquecidos.”

(Eclesiastes 2:12-16).

Diante da morte, a sabedoria humana também não faz diferença. Sábio e tolo têm o mesmo destino: a morte e esquecimento (v.16). A sabedoria humana também não poderia satisfazer a busca interior do Mestre. 

Graças a Deus, hoje temos acesso a uma sabedoria muito superior à sabedoria humana. Escrevendo aos coríntios, Paulo disse que sua pregação não consistia de palavras persuasivas de sabedoria, para que a fé deles não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus. Ele apresentava sabedoria, mas não a “sabedoria deste século”. Era a sabedoria de Deus, oculta em mistério por muito tempo. Os homens poderosos do mundo não a conheciam, mas ela foi revelada pelo Espírito de Deus e vai muito além do que podemos compreender apenas por nossa capacidade natural. Pelo Espírito, podemos dizer que temos a mente de Cristo (1 Co 2:1-16).

Conclusão

Eclesiastes nos chama a reconhecer a finitude e insuficiência de nossas vidas. Nos mostra que não podemos pôr nossa esperança em prazeres, realizações, glória e conhecimentos humanos. 

Você percebe como isso vai contra várias visões de mundo atuantes nos dias de hoje? Eclesiastes é um livro antigo mas sua mensagem é muito atual. Que possamos reconhecer nosso lugar de dependência de Deus, buscando amá-Lo de todo o coração, agradando-O em tudo que fizermos. A verdadeira sabedoria, glória e satisfação só podem ser encontradas Nele.





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