Recentemente li um texto de uma amiga, no qual dizia que desejava ter “spoilers”[1] da vida.  Por muitas vezes desejava saber o que lhe iria acontecer no futuro. Ela gostaria de ter essas revelações assim como gosta de ter spoilers das séries que assiste (um gosto bastante incomum, eu sei).

Creio que pensamentos desse tipo sejam bastante comuns. Parece-nos sempre melhor ter tudo bem planejado e definido, ter certeza sobre como coisas importantes de nossas vidas acontecerão. Mas a verdade é que não temos controle sobre o que virá. É o que descobrimos durante situações especiais, nas quais não sabemos como agir, momentos de indefinição, nos quais somos tomados por dúvidas incontáveis e até mesmo assombrados pelas piores perspectivas.

O Senhor Jesus avisou que teríamos aflições (Jo 16:33) aqui. Mas Ele, que venceu o mundo, nos provê o necessário para vencer todas elas. Creio que há três itens que Sua Palavra menciona, dos quais precisamos nos lembrar em tais circunstâncias. O famoso trio: fé, amor e esperança.

Por fé devemos viver, ao invés daquilo que vemos com nossos olhos naturais. Olhar para aquele que é invisível, capaz de fazer o que é sobrenatural.

Fé não é sobre ver e também nao é sobre sentir. É, antes, ter convicção firme e inabalável, mesmo diante das circunstâncias mais adversas. No Natal de 1939, ano em que se iniciava a Segunda Guerra Mundial, o Rei George VI, pai da rainha Elizabeth II, citou um poema numa transmissão de rádio. Um trecho dele dizia o seguinte:

“Eu disse para o homem que estava no Portão do Ano

‘Dê-me uma luz para que eu possa adentrar seguramente no desconhecido.’

Ele respondeu: ‘saia na escuridão e ponha sua mão na mão de Deus.

Isso será para você melhor que luz e mais seguro que qualquer caminho conhecido'” [2]

Uma guerra de proporções inimagináveis. Este era, certamente um momento de grande e terrível indefinição. Sempre pedimos por luz e por caminhos conhecidos, mas, como diz o poema, melhor é apenas tomar a mão de Deus, ainda que no escuro.  Melhor é confiar nele, mesmo quando não há visão do que está adiante e não temos ideia do que acontecerá. Esta é a verdadeira fé. Abraão, o “Pai da fé”, quando chamado, obedeceu, e partiu sem saber aonde ia. Por fé seria capaz de sacrificar Isaque, o “filho da promessa”. O resultado de sua obediência por fé foi benção como nenhum outro recebeu, a ponto de ser chamado “amigo de Deus”.

O amor de Deus

O amor de Deus por nós é imensurável. Devemos sempre nos lembrar disso. A grandeza desse amor é revelada em sua obra de redenção e também podemos percebê-la nas diversas situações em que recebemos seu cuidado. Como somos amados! Podemos contar suas muitas bençãos? Relembrar e refletir nelas traz gratidão e confiança para prosseguir.

Porque Deus nos ama, está sempre cuidando de nós, até quando as circunstâncias indicam o contrário. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8:28).  Todas as coisas, até mesmo as aflições pelas quais passamos, cooperam para nosso bem. Mas, que “bem” é esse que o versículo menciona? Certamente algo muito maior do que naturalmente pensamos. O versículo seguinte revela que tal “bem” refere-se a sermos conformados à imagem de Cristo. Ele, que nos conheceu de antemão e nos predestinou, nos levará até lá.

Descansemos nesses fatos. Ele, que cuida de nós em relação às coisas grandes e eternas, não cuidará também das pequenas e temporais? Certamente, Ele nos levará até nosso bom destino final, por meio de cada situação, que jamais será acima do que podemos suportar.

É certo que o Pai amoroso cuida de seus filhos. E que dizer de seu amor manifestado entre eles? Deus nos pôs numa nova família, a igreja. Nessa família devemos consolar-nos e encorajar-nos mutuamente. O amor traz alívio e torna nossas lutas mais leves, ainda mais estando juntos daqueles que passam pelas mesmas lutas.

Esperança

Minha amiga queria spoilers e por fim descobriu que a Bíblia está cheia deles! Ela nos mostra a conclusão de todas as coisas, revela o fim de todo pranto e menciona a alegria que não acabará. Ela fala de nosso destino glorioso de sermos conformados a Cristo, como já mencionado acima. Seremos transformados, o pecado já não estará em nós e habitaremos com nosso Amado para sempre. Podemos consolar-nos ao pensar na esperança que temos. Paulo ordena que façamos isso (1 Ts 4:18). O cristão sabe que as injustiças deste mundo acabarão. Sabe também que a morte não será o seu fim, antes será apenas passagem para uma nova vida, na qual verá face a face Aquele que fará todas as coisas novas. Quando as incertezas desta vida trouxerem aflição, ainda assim poderá provar felicidade, pois a esperança que temos em Cristo não se limita a esta vida aqui.

A Palavra de Deus consola-nos. Em meio às dúvidas que nos cercam, temos uma firme certeza na pessoa de Cristo. Ele é nossa constante quando tudo mais parece incontrolavelmente mutável. É nossa rocha quando tudo se abala. É preciso confiar Nele, tendo sempre a consciência de que Ele está com os que o buscam, presente mesmo nas horas de tribulação. Certamente, o Pai cuida de nós e nos levará ao glorioso destino para o qual fomos criados.

[1] Spoilers: revelações sobre o enredo de um livro, filme ou série antes que a pessoa lhes tenha visto.
[2] The Servant Queen and the King she serves – William Shawcross – Bible Society