O Exame Nacional do Ensino Médio passou e, como é comum, as preocupações com a prova pouco a pouco dão espaço à ansiedade e a incontáveis questionamentos. Se me permite, eu gostaria de contar uma (não tão) breve história e, a partir dela, convidá-lo a fazer algumas reflexões que talvez sejam pertinentes para esse momento tão conturbado.

Essa narrativa se passa antes mesmo do início do ensino médio. Já nessa época precisei prestar alguns concursos na esperança de frequentar escolas técnicas prestigiadas de minha cidade. Isso significa que, desde cedo, eu me perguntava: “o que vou fazer da vida?”

A resposta me parecia óbvia: algo que desse bastante dinheiro. Muitos vão entender e concordar que, quando se cresce em um lar em que as dificuldades financeiras imperam e tudo é sempre muito difícil de se obter, a expectativa de um futuro repleto de acesso a bens materiais é a decisão mais sensata. Em minha família, havia duas pessoas que alcançaram o tal “sucesso financeiro”; ambas exerciam o ofício da engenharia. Com aqueles exemplos, tive a certeza, no alto dos meus treze anos, do que queria para a minha vida: ser rico. Brincadeira! Eu não esperava exatamente isso, mas comecei a trilhar meus caminhos rumo à formação como engenheiro.

Entrei para uma escola técnica e cursei eletrotécnica, sempre com um objetivo claro de prestar vestibular para engenharia elétrica. Havia, porém, um problema que eu ignorava: eu nem era tão bom assim em exatas. Na verdade, nem gostava muito daqueles números. Mas tudo se resolve, não é mesmo? Eu daria um jeito. Por dinheiro e sucesso, sempre damos um jeito.

Avancemos alguns anos. Vamos para 2011, quando prestei o ENEM pela primeira vez. Concluí o curso técnico, mas você precisa saber que eu era péssimo aluno, então não estava exatamente bem preparado para o vestibular. Ainda assim, meu caminho estava devidamente delineado para mim, então inscrevi-me em engenharia pelo SISU, mesmo sabendo que não havia qualquer chance (sério, meu resultado foi risível). E eu estava certo. Não deu. “Tudo bem”, pensei. “Bola pra frente. Ano que vem é tudo meu.”

Começa o ano de 2012. Dessa vez rolaria, estava certo disso. Matriculei-me em um pré-vestibular comunitário e comecei a estudar, mas na metade do ano eu já estava desanimado. Não queria saber daquilo. Sabia também de outra coisa: não havia a menor condição de ficar sentado no sofá sem fazer nada, então fui arranjar trabalho.

Com 18 anos, tive meu primeiro emprego: auxiliar de escritório em uma empresa de engenharia. Não era tão glamouroso quanto ser engenheiro, claro, mas estava tendo contato com a profissão dos meus sonhos. Além disso, o trabalho não era tão ruim. Meus colegas e minha chefe eram legais, eu era liberado uma hora mais cedo para não perder as aulas do pré-vestibular, aprendi a conhecer melhor a cidade em que moro, tinha um vale-refeição que me permitia almoçar em uns restaurantes bacanas e o salário, embora não fosse aquela coisa que mudaria minha vida, era suficientemente satisfatório para pagar algumas contas e bancar qualquer necessidade que um jovem recém-chegado à vida adulta poderia ter.

Eu não tinha do que reclamar. Só que havia um problema. Eu não me sentia bem naquilo. Noites de domingo me deixavam desanimados (mais do que o normal) diante da perspectiva de retornar àquele escritório. Pensar em enfrentar o trânsito caótico de minha cidade, preso por quase duas horas dentro de uma condução lotada, apenas para cumprir a carga horária de uma função que detestava exercer – aquilo definitivamente não era o que eu queria. Via colegas de trabalho, que sabiam do meu desejo de tornar-me engenheiro, planejando os detalhes de minha futura carreira dentro da dita empresa, mas eu não me enxergava como parte daquilo. Mais do que isso, passei a notar que a função em questão, embora tenha todo o seu mérito, não funcionaria muito para mim se de fato a exercesse.

Tentei o vestibular mais uma vez naquele ano, novamente para engenharia, ainda que a incerteza batesse – afinal, a promessa de dinheiro pesava consideravelmente. Foi nesse momento em que ocorreu a “epifania”.

Estava fazendo a prova discursiva para uma universidade da minha cidade. Dentro da sala repleta de mentes que matutavam e esfumaçavam diante daquele conteúdo tão complexo, eu desbravava as questões de química. Eu queria rir. Aquilo parecia uma piada. Lembro-me perfeitamente do instante em que ergui a cabeça e a apoiei na parede atrás de mim. Olhei todas aquelas pessoas em volta, vislumbrei momentaneamente os inspetores (que me observavam de volta, com um olhar de aparente suspeita) e, por fim, fiquei observando o teto. Assim permaneci por longos minutos. Infindáveis questionamentos fluíam dentro de mim, mas acredito que posso resumi-los às seguintes palavras:

– Senhor, o que eu estou fazendo aqui?

Eu comecei a ter uma breve conversa com o Senhor e coloquei diante Dele todas as minhas dúvidas. Nesse diálogo, pude repensar minhas recentes experiências profissionais e me questionar se engenharia era algo que realmente gostaria de fazer. Porém, teimoso que era, cheguei, solitariamente, à conclusão de que eu deveria, sim, tentar. Afinal, engenharia é o que dava… bom, você já sabe. Voltei para a prova cheio de gás, sabendo que, com a força de Deus, eu detonaria aquelas questões de química.

Não. Não detonei as questões. Foi mais o contrário, para ser sincero.

Ano de 2013. Ano novo, vida nova, mesmo não passando para engenharia mais uma vez. Mas dessa vez ia acontecer. Eu estava sentindo. O Senhor havia me abençoado enormemente, colocando no coração de uma prima (uma das engenheiras mencionadas anteriormente) o sentimento de custear um pré-vestibular de qualidade para mim. Fui para as aulas a todo vapor. Naquele ano, eu finalmente tomei vergonha na cara e me dediquei aos estudos.

Nesse tempo, tive que fazer um estágio para concluir meu curso de técnico em eletrotécnica (sim, ainda estava no prazo). Consegui uma oportunidade numa empresa bem pequena. Estava tudo indo quase bem, exceto pelo fato de que, pela segunda vez, eu me via fazendo algo que detestava. Não vou entrar em detalhes, mas foi uma experiência péssima e que me mostrou o quanto eu não teria disposição para atuar naquela área. O ano de 2013 foi muito conturbado nesse sentido. Pensei muito sobre a vida, sobre mim, sobre meus gostos e habilidades. Lembro-me de ter levado essas indagações até minha mãe, que me recordou da única coisa na qual não estava pensando: apresentar minhas dúvidas e dificuldades ao Senhor. Com essa orientação, foi o que fiz.

Com muito esforço, concluí o tal estágio e passei o restante do ano estudando. Dessa vez, colocando tudo em oração, o Senhor me mostrou qual caminho eu deveria tomar. Dadas as minhas orações, minhas reflexões e tentativas de me conhecer melhor, cheguei à conclusão certa: faria Letras.

Veja bem, era um curso que me prometia justamente o oposto do que eu planejara por tanto tempo. Julgava que não teria boas oportunidades de emprego e que jamais seria tão bem-sucedido quanto na outra carreira. Mas havia paz em meu coração, e o Senhor sempre me acalmava quando as incertezas começavam a surgir. E Ele sabe o quão difícil foi. Alguns familiares e colegas tentaram me desestimular, dizendo que era a certeza de uma carreira falida e que eu me arrependeria dessa decisão. Não dei ouvidos a essas palavras que, pude reconhecer, vinham originalmente daquele que tenta nos enfraquecer. Antes, resolvi descansar meu coração no Senhor.

Em 2014, entrei na Faculdade de Letras em uma grande universidade do país. Lá dentro, também vivi outras lutas que me fizeram depender mais e mais do Senhor, e isso já era esperado. Contudo, tive também a oportunidade de conhecer um universo científico belíssimo, de me aproximar de pessoas por quem tenho grande admiração até os dias de hoje, de conhecer amigos que me encorajaram espiritualmente e intelectualmente e de me identificar como profissional. Apresentei um bom desempenho enquanto aluno e pude me desenvolver academicamente. Hoje, sou formado e licenciado em Letras e estou prestes a defender minha dissertação de mestrado.

Quanto ao emprego: não foi fácil no início, mas o Senhor sempre se manteve fiel. Hoje, atuo no campo editorial, uma área de que gosto bastante e na qual pretendo me aprofundar. É um trabalho digno, no qual dependo imensamente da graça e misericórdia de Deus, e gratificante, mesmo em meio às lutas (que sempre aparecem). É também um trabalho que me permite viver uma vida adequada com todo o suprimento que o Senhor provê na medida certa.

Enfim, escrevi toda essa história esquisita na esperança de ajudar você, jovem vestibulando, com alguns conselhos que torço para que sejam úteis. Dito isso, vamos a algumas considerações pertinentes.

Acho que fui bem na prova, mas não sei qual curso fazer

Acho que essa é uma das maiores e mais terríveis dúvidas, principalmente porque nos pegamos com uma decisão de tamanha grandiosidade quando mal conhecemos a nós mesmos. Hoje, por exemplo, vejo indícios de minha adolescência que já apontavam para o percurso que sigo (amava ler e escrever, além de gostar das aulas de Literatura), mas na época não era tão evidente assim. Então, considere estas questões:

  •         Coloque todas as suas dúvidas diante do Senhor (Filipenses 4:4, 6): essa é a atitude mais óbvia, porém é a que mais ignoramos. Em tudo devemos orar e ser gratos. Ore para que o Senhor lhe dê paz em sua decisão. Mais que isso, ore para que Ele lhe revele aquilo que será útil em Sua obra. Muitas vezes, nossas habilidades profissionais são usadas para colaborar no serviço a Deus e aos irmãos. No meu exemplo, hoje reviso e escrevo alguns textos para o blog, além de auxiliar em outros serviços nos quais esse tipo de conhecimento se faz necessário. Também já pude dar algumas aulas para irmãos mais novos que não tinham condições de pagar um curso pré-vestibular, por exemplo. É imprescindível que ponhamos tais dúvidas diante de nosso Senhor Jesus Cristo, sempre dispostos a servi-Lo e a cumprir Seu querer. Isso tornará o processo mais fácil. Então, lembre-se de fazer “conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica” (v. 6).
  •         Autoconhecimento (Romanos 12:5-8): você já tirou um momento para se conhecer melhor? Já observou os dons, os interesses e as habilidades que o Senhor lhe concedeu? Já parou para avaliar se sua personalidade pode influenciar o trabalho que gostaria de exercer? Na minha experiência, precisei ver pessoalmente a realidade do meu antigo “sonho” para notar que não era algo que me agradava e, principalmente, para perceber quem eu era e quais eram meus maiores interesses. Notar em que as habilidades que me foram concedidas eram devidamente aplicadas contribuiu bastante para a escolha final.
  •         Peça aconselhamento (Colossenses 3:16): converse com pessoas de confiança, que o conheçam bem, para ajudá-lo no processo de identificar possíveis caminhos. Perguntar a opinião de terceiros que reconheçam suas capacidades pode facilitar a tarefa de se conhecer melhor. Devemos atentar para que não caiamos em ciladas, mas, no geral, ouvir conselhos prudentes que irmãos e familiares têm a oferecer é um ótimo acréscimo.
  •         Chances de obter carreira profissional (Mateus 6:25-31, 33): sabemos que o momento que vivemos não é fácil, que há um grande número de desempregados, e essa é uma realidade que nos atinge diariamente por meio dos noticiários. É certo também que algumas funções são mais valorizadas e procuradas do que outras. De qualquer forma, como filhos de Deus, precisamos nos recordar de que Ele é quem cuida de nós. Afinal, não podemos acrescentar côvados ao curso de nossa vida (v. 27), mas o próprio Cristo nos garantiu de que não há motivos para nos inquietarmos com ponderações sobre o que comer ou vestir (v. 31). Priorize andar em Seu caminho, e todas as demais coisas serão acrescentadas (v. 33).

Além disso, talvez você ainda não saiba, mas a academia é bem ampla. Normalmente, entramos na faculdade achando que sairemos de lá prontos para exercer uma função específica, mas a verdade é que você pode descobrir outros caminhos e profissões não muito comentados. Até hoje eu tenho vontade de experimentar outros cursos, profissões e especializações na área de Letras com os quais tive pouco contato. As possibilidades são variadas, você talvez apenas não as conheça.

  •         E se não for o que você esperava: isso pode variar um pouco de pessoa para pessoa. Algumas necessitam completar os estudos para trabalhar o quanto antes, enquanto outras dispõem de mais tempo para descobrir a área mais adequada. Creio que, se você tiver essa disponibilidade e, principalmente, o Senhor lhe conceder tranquilidade, nunca é tarde para desenvolver um novo conhecimento e exercê-lo profissionalmente. Então, nesse caso, não tenha medo de errar.

Estudei bastante, mas e se eu não passar?

  •         Coração de gratidão nas tribulações (Romanos 5:3-4): A parte de ser grato em todas as coisas também deve ser exercitada em circunstâncias negativas, por mais contraditório que isso possa parecer. Isso, porém, mostra que confiamos nas decisões de Deus, sabendo que Ele tem o melhor para nós. Na minha experiência, eu acreditava ter perdido alguns anos de minha vida, mas, depois, pude perceber que as coisas ocorreram no tempo certo. Por exemplo, entrei na faculdade com um pouco mais de maturidade para lidar com diferentes dilemas, tanto no âmbito espiritual quanto no pessoal. As oportunidades profissionais e acadêmicas também vieram no tempo adequado, mesmo eu começando o curso aos 20 anos (o que, para o imediatismo de muitos, pode ser considerado tardio, mas, convenhamos, nada a ver isso aí).
  •         Tempo para refletir e orar por sabedoria (Provérbios 2:1-10): Talvez você esteja certo do que pretende fazer. Se for seu caso, não há muito mistério: continue a orar, a servir o Senhor e a estudar, que certamente você será recompensado. Por outro lado, se, como eu naquela época, ainda lhe restam dúvidas, talvez seja a experiência necessária para deixar o Senhor lhe revelar qual é a vontade Dele. No meu caso, as falhas, as frustrações e as dificuldades foram úteis para trabalhar a questão da humildade e do apego a bens materiais. Pude trocar a adoração ao dinheiro pela adoração ao Senhor. Hoje, vivo com alegria em Deus, aprendendo, dia após dia, a confiar cada vez mais Nele e a buscá-Lo para obter qualquer sorte de conhecimento.  A velha impressão de “estar perdendo tempo”, que antes permeava meus pensamentos, era totalmente infundada. Então não acredite nisso. Nenhum tempo é perdido quando usado para estar na presença de Deus.
  •         Trabalhar seus dons (1 Pedro 4:10): Por fim, pode ser um tempo útil para desenvolver mais seus dons, ou até mesmo novas habilidades que lhe abram portas profissionais e, principalmente, novas oportunidades de serviço a Deus. A lógica do autoconhecimento já mencionada também se aplica aqui. Continue a se esforçar e, se possível, envolva-se mais com os serviços e ministérios de sua igreja. Esse é um meio muito prático e saudável de se desenvolver, de conhecer irmãos que podem lhe ajudar e, acima de tudo, de agradar o coração de Deus.

Resumidamente, mesmo que você não consiga entrar no curso que deseja nesse momento, aproveite a oportunidade para estreitar mais seus laços com o Senhor. Faça uso desse instante de ansiedade para se achegar a Ele, para expor suas expectativas, desejos e frustrações e, principalmente, para ouvi-Lo.

Acho importante ressaltar que essas dicas baseiam-se em experiências pessoais. Reforço que há pessoas que não podem dar-se ao luxo de mudar de faculdade várias vezes, bem como há quem precise abrir mão de certas experiências e aprendizados porque têm de trabalhar e estudar, por exemplo. Dessa maneira, não espero que todos os conselhos se apliquem a cada um. Cabe a você identificar se algum deles está de acordo com sua condição e tomar as melhores decisões.

Todavia, independentemente de qual seja a situação em que você se encontre, há uma dica invariável: certifique-se de que seus caminhos e escolhas estão submetidos à vontade de Deus. O Senhor age por meio deles, mas, no fim, não serão nossos planos nem os desejos de familiares e de amigos que revelarão a decisão adequada. Em todo o tempo – antes, durante e após a faculdade –, nossos olhos devem estar voltados ao Céu; e nossos corações, conectados a Deus. Conhecer intimamente Seus planos é a melhor maneira de identificar o caminho adequado a ser seguido. Portanto, ore! Seja na angústia, seja na felicidade, o Senhor é a única resposta correta. E o melhor: você não precisa passar um ano de sua vida se preparando para descobrir que isso é um fato incontestável.



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