Onde está o teu tesouro?

Somos acostumados, em nossa vida cristã, a pensar que nossas atitudes são moldadas por aquilo que sabemos; em verdade, esta ideia envolve todo o nosso contexto cultural: procuramos adquirir conhecimentos que nos ajudem a comer melhor, abandonar o sedentarismo, agredir menos o ambiente, ser mais justos com as outras pessoas, etc. Entretanto, se formos honestos, teremos de admitir que esses conhecimentos são, na maioria das vezes, insuficientes para mudar o comportamento. 

Quem de nós nunca decidiu ter uma alimentação balanceada, com mais verduras e legumes mas, na primeira oportunidade, foi comer uma pizza cheia de bacon? Ou então, se determinou a praticar mais atividade física pra não ter um infarto aos trinta anos, porém acabou gastando o dia todo na companhia do Netflix/Xbox/cama? Por que isso acontece?

O que queremos?

Quando dois discípulos de João Batista tiveram a atitude de seguir Jesus, Ele lhes perguntou: “o que vocês querem?” (Jo 1:35-39 – NVT). Quando o cego Bartimeu clamou por Jesus, foi chamado por Ele e o ouviu perguntar: “O que você quer que eu lhe faça?” (Mc 10:46-52). O que as histórias acima têm em comum? Elas se dão em contextos diferentes, com personagens distintos, mas em ambas Jesus faz a pergunta: “o que você quer?” Vejam que ele não perguntou “o que você sabe?”, “em que você acredita?” ou mesmo “o que você espera?”; o conteúdo da pergunta era “o que você deseja?”.  E por que esta distinção é significativa? Porque ela mostra que Cristo se importa com a nossa vontade: ele chama a atenção para nossos desejos além de nossas convicções. 

O que nós somos?

Segundo algumas correntes filosóficas, o ser humano é uma coisa pensante. Desde as primeiras aulas sobre biologia no Ensino Fundamental (quando elas ainda nem levam esse nome) que nos classificam como um animal racional, somos condicionados a enxergar a cognição como aquilo que nos diferencia do restante das criaturas. E quem não lembra de já ter ouvido a famosa frase de Descartes “penso, logo existo” (ou “penso, portanto sou”). Desse modo, se o que nos define é a nossa capacidade de pensar, ela também deveria mover nossos atos, correto?

Uma grande limitação desta definição já foi apontada logo no início desta conversa: sabemos que, na prática, simplesmente pensar positivamente sobre algo não nos move em direção a esse algo. Aprovar uma determinada conduta não nos faz, necessariamente, adotar esta mesma conduta. O que, então, a Escritura diz a nosso respeito?

Tiago 4:1-3 explica que há prazeres – ou paixões – que guerreiam dentro de nós e resultam em brigas, guerras, cobiças e morte. O trecho também diz que estes prazeres podem ser a causa de orações não atendidas, pois elas tiveram como motivação os próprios deleites de quem ora, à parte da boa vontade de Deus. Então Tiago nos adverte que o Espírito de Deus tem ciúmes de nós. Será que é Ele o rei sobre nossos corações? Ou são esses prazeres?

Jesus também advertiu: “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt 6:21). É preciso que consideremos as coisas do Senhor como o que é mais precioso para nós, como nosso tesouro. Assim, podemos ver como é importante colocarmos nossos corações nos lugares apropriados! Pois do coração “procedem as fontes da vida”, ou, como é dito em outra tradução, o coração “dirige o rumo de sua vida” (Pv 4:23 – ARA e NVT). Além disso, Jesus disse que é do coração que procedem os planos e atos malignos (Mt 15:18-19).

Deus nos diz que não somos movidos apenas pelo que achamos; somos movidos pelo que gostamos, ou amamos. Então, o caminho para mudar nossas atitudes não passa, simplesmente, pela mudança em nossos conhecimentos, mas passa, principalmente, pela mudança em nossos amores. Todos nós tendemos a ir em direção àquilo que desejamos. O autor do livro “O pequeno príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry, resume bem este conceito quando diz: 

“Se você quer construir um navio, não chame as pessoas para juntar madeira, nem lhes atribua tarefas e trabalho, mas ensine-as a desejar a infinita imensidão do oceano”.

Uma vez que tenhamos percebido que, mais do que seres pensantes, somos seres amantes,  será muito mais fácil entender, por exemplo, o motivo de pessoas praticarem atos nocivos à saúde enquanto instruem outros a terem práticas saudáveis , e outras tantas contradições. Elas ocorrem porque, não importa o quanto saibamos ou o que pensemos a respeito de algo, por fim, iremos em direção àquilo que amamos. Então, se queremos sinceramente mudar algo em nossa vida, devemos responder à seguinte pergunta: “como podemos recalibrar nossos amores?”.

O poder da adoração

Nós gastamos tempo com as coisas que gostamos. Nos dedicamos a contemplar aquilo que nosso coração mais deseja. 

Há passagens bíblicas que dizem que as pessoas que adoram a ídolos tornam-se semelhantes a eles (cf. Sl 115:4-8; 135:15-18). E por que isso ocorre? Porque nós amamos aquilo que adoramos. Talvez essa frase possa parecer estranha e até redundante, porque nos acostumamos ao uso do termo “adoração” como um “amor intenso”, como quando um casal de namorados declara “eu te adoro”, ou quando alguém diz “nossa, eu adoro aquela série”. Entretanto, se encararmos o verbo “adorar” como sinônimo de “contemplar”, “admirar” ou “apreciar” (seu sentido original), perceberemos como esta frase faz total sentido: aquilo a que prestamos nosso tempo e dedicamos nossa atenção acaba por fazer parte de nosso próprio ser.

Tendo isso em mente, podemos perceber que, se quisermos redirecionar nossos amores, precisamos redefinir nossos objetos de adoração. E isto é algo que vai muito além do simples ato de agregar informação ao nosso repertório: é necessário um processo de formação do nosso ser. Engana-se redondamente quem afirma não adorar nada nem ninguém: como seres amantes somos, por constituição, seres adoradores. O que está sempre em jogo não é se você adora algo, mas sempre o que você adora; por conseguinte, nenhum de nós deveria se perguntar se ama algo acima de tudo, mas o que (ou quem) ama acima de todas as coisas. 

Hábitos e caráter

Já vimos que nossas práticas são direcionadas por nossos amores, que são formados pela adoração. Agora, precisamos perceber que nada disso se dá, via de regra, de forma consciente: pelo contrário, esses processos “rodam” nas camadas profundas de nosso ser. Tais processos são tão poderosos, e difíceis de serem mudados, porque se constituem em hábitos. Eles fazem parte de nosso caráter, de nosso “personagem” no “teatro da vida”. Uma das definições possíveis para caráter é a “soma das virtudes e vícios do indivíduo”. Entretanto, o que é uma virtude, senão um bom hábito? E o que é um vício, senão um mau hábito?

Tendo isso em mente, fica mais fácil entender a dificuldade da mudança em nosso ser: hábitos não são frutos de uma decisão momentânea (ou mesmo de um momento decisivo); eles são construídos. São frutos da repetição de certas atitudes. Essas repetições, quando feitas de maneira propositada, podem ser chamadas de rituais ou mesmo liturgias. E, se olharmos mais atentamente para os vários contextos que nos cercam, veremos que nossa sociedade proporciona inúmeros rituais que visam moldar nossos hábitos e influenciar até mesmo os mais importantes de nossos hábitos, os da nossa vida de comunhão com Deus.

O objetivo da vida cristã

Romanos 8:29 declara o objetivo da obra de Deus em nossas vidas: sermos conformados à imagem de Cristo. O versículo seguinte mostra que Deus predestina pessoas e trabalha nelas até, por fim, levá-las à glória, isto é, a manifestação de quem Ele é. Mas como isso acontece?

Um dia, como ensina João, veremos o Senhor e seremos semelhantes a Ele (1 Jo 3:2-3). Sua glória será manifestada em nós. Além dessa porção, podemos ver outra passagem que mostra que a ação de ver está ligada à ação de se tornar algo. 2 Coríntios 3:18 diz:

“contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”.

Ante o exposto, percebemos que Deus pretende nos conformar a Cristo não simplesmente em nosso intelecto, mas em nosso caráter. Ele deseja nos transformar em pessoas que não apenas pensem como Cristo, mas que ajam (e reajam) como Cristo. Suas  virtudes devem ser formadas em nós. E, como vimos anteriormente, isso só pode ser alcançado mediante a mudança em nossos hábitos. Isso, obviamente, demanda de nós um esforço ativo de contemplação da pessoa de Jesus e em práticas capazes de moldar nosso comportamento ao Dele.

Influenciados pela cultura, temos sido levados a desprezar qualquer tipo de repetição, dando preferência à espontaneidade. Entretanto, se entendemos que tudo o que fazemos produz algo em nós, poderemos diferenciar as repetições vazias citadas em Mt 6:7 das práticas formadoras e hábitos e, portanto, construtoras de caráter.

Por fim, precisamos relembrar que, para criar novos hábitos que não estejam alinhados à nossa disposição natural (por exemplo, praticar atividade física, que é uma dificuldade de muitos), precisamos de uma postura ativa. Sabemos que contemplar o Senhor é importante, mas nosso coração, influenciado pela natureza pecaminosa, nem sempre deseja fazê-lo. Devemos, portanto, perseverar. Nossa vida devocional e nosso viver como igreja devem ter sempre como foco a adoração ao Senhor e nossa conformação a ele, “esforçando-nos diligentemente” para nos mantermos nessa direção.

Encorajamento

Vimos que somos movidos pelo que amamos. Sabemos que somos seres adoradores e nos tornamos semelhantes ao que adoramos. Agora, o que precisamos, é aprender a transformar nossos amores. Por conhecer mais do Senhor, desejamos prosseguir em conhecê-Lo. Por conviver com Ele, desejaremos estar cada vez mais unidos a Ele. Por isso, transforme sua rotina. Dê à leitura bíblica, à leitura de livros espirituais, à oração, ao louvor, à comunhão, o lugar que eles merecem. Leve seu coração a praticar tais coisas, ainda que não entenda ou não se sinta à vontade no início. Pois, pela perseverança (esforço), tais práticas se tornarão hábitos. 

Além disso, faça-se os seguintes questionamentos: “por que você vai às reuniões da igreja? Você está ali apenas em busca de experiências centradas em si mesmo, de maneira egocêntrica? Ou para servir a Deus e ao próximo? Está ali somente para consumir, ou para se entregar? Procura vantagens para si, ou abre mão de seus próprios interesses pela vontade de Deus?”. Busque identificar quais são as práticas em sua comunidade de fé que visam atender aos seus próprios interesses, e quais são aquelas que, genuinamente, visam conformar suas atitudes àquelas de nosso Senhor. Esforce-se por incorporar estas últimas, até que seu comportamento seja regido pelas virtudes formadas pela repetição intencional destas práticas.

Precisamos sempre nos lembrar, porém, que quem faz a obra é o Senhor e confiar Nele para desenvolver o processo de contemplação e conformação, até chegarmos à Sua Glória!


Colaboração enviada por Felipe André Alves.

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