Pais espirituais

O dia dos pais se aproxima e desde já muitas são as comemorações e homenagens realizadas a eles e que são catalisadas pela data simbólica. Nessa época do ano todos os lugares estão cheios de propagandas, frases clichês e estereótipos, como o de que pais são heróis. Os filhos aparecem sorrindo ao lado dos pais em fotos nas redes sociais e todos os pais parecem iguais: heróis perfeitos.

Mas os pais não são iguais, assim como os filhos não são. E os pais não são perfeitos, nem heróis. Os pais são diferentes, são humanos, possuem acertos e erros, qualidades e defeitos. Os pais podem ter cumprido bem sua função humana de pai, ou não; e podem ter cumprido sua função espiritual de guiar os filhos no caminho do Senhor, ou não.

Pais não são exatamente iguais. Olhe para eles. Há diversos tipos de pais: biológicos, adotivos, jovens, idosos, casados, viúvos, presentes, ausentes, mais rígidos, menos rígidos; há pais que, por circunstâncias adversas, tiveram de criar os filhos sozinhos; há pais que, infelizmente, rejeitaram a benção que é a paternidade, deixaram seus filhos e não cumpriram sua função; há pais que já se foram e hoje permanecem apenas na memória; há pais que ainda não conhecem ou creem no Senhor, e pais que são cristãos; há pais cristãos que viveram o cristianismo de fato e foram exemplos para seus filhos e pais cristãos que, infelizmente, não conseguiram ser assim. 

Da mesma forma há diversos tipos de filhos. Alguns foram criados por um pai presente, outros por um pai ausente; alguns nem mesmo conheceram o pai, outros já não têm mais o pai; alguns não valorizam ou desprezam o pai, outros são gratos e honram o pai; alguns sofreram ou sofrem por causa de atitudes do pai; outros foram muito cuidados e amados pelo pai; alguns podem relacionar o pai a situações traumáticas, outros relacionam a grandes alegrias e bons ensinamentos; alguns filhos não receberam instrução cristã dos pais, outros receberam e rejeitaram, e outros receberam e perseveram; alguns filhos já são pais, outros gostariam de ser pais, mas ainda não são; e há os que não podem ser pais por alguma circunstância, ou optaram por não serem pais com o objetivo de se dedicarem integralmente ao ministério.

Esses são apenas alguns exemplos de tipos de pais e filhos. E é provável que você tenha se identificado com uma das situações apresentadas. Não sabemos que tipo de pai você teve, nem que tipo de filho você foi ou é. Por isso não sabemos que recordação ou significado o dia dos pais traz a você. Talvez lhe traga alegria e gratidão, mas talvez lhe traga tristeza e dor.

Você pode ser um filho que precisa perdoar seu pai, um filho que precisa pedir perdão a seu pai, ou um filho que precisa orar pela conversão do pai. Você pode ser um pai que precisa pedir perdão a seu filho e passar a cuidar dele expressando o Senhor, pode ser um pai que precisa perdoar o filho, ou um pai que precisa orar para que seu filho seja alcançado e transformado pela graça. 

Se você tem algum trauma, dor, confere a seu pai alguma culpa, lembre-se do seguinte: nascemos pecadores, inclinados para a carne, inimigos de Deus, com pensamentos caídos, idólatras, carentes da graça e recebemos um legado de fútil procedimento que passa de geração em geração desde a queda. Não há justo, nenhum sequer. Seu pai e você compartilham da mesma história. Ambos pecaram e carecem da glória de Deus. Você não é mais digno da graça de Deus do que ele é. Na verdade, ninguém é digno. Fomos salvos porque assim aprouve a Deus. Você não foi um bom menino e por isso recebeu a salvação. 

Talvez você pense que isso se aplica a quem não é cristão, que eles têm justificativa para tal comportamento. Mas você é filho de pai cristão e por saber o modo como ele deveria ser e agir, você o julga. Sim, espera-se de cristãos um viver que condiz com a fé que professa. Mas não seja juiz. Apenas o Senhor é reto juiz. Sua função é orar, interceder para que seu pai receba luz. E, além de orar, tenha um viver cristão adequado. Você pode ajudá-lo ao dar um bom testemunho de quem vive o evangelho e ao amá-lo, mesmo ele ainda possuindo defeitos. Ora, você ainda tem defeitos, ainda peca, mas o Senhor permanece amando você e usando de misericórdia. 

Se você precisa perdoar, pedir perdão, ou mesmo superar um trauma ou uma perda, encorajamos que você vá em oração diante do Senhor, peça a Ele sabedoria, e tome uma atitude. Você foi perdoado por Deus sendo inimigo dele e amante do mundo. Você foi redimido, está sendo transformado, santificado e recebeu discernimento por meio da Palavra. Se você, muito devedor, teve sua dívida cancelada, perdoe também. O mesmo poder que opera em você pode operar em seu pai ou em seu filho.

Não limite o poder de Deus ao que você considera possível. Lembre-se de que você não é mais digno do que ninguém. É o poder de Deus que opera em você. Se você hoje consegue andar em obediência e santidade, é por causa Dele, não por mérito seu. Deus tudo pode! Creia! Ele pode salvar, perdoar, justificar e transformar qualquer pessoa, seja lá o que ela tenha feito. 

Agora, talvez você tenha um pai que ainda não é cristão. Que você deve fazer? Ore também! Interceda pela salvação dele, ame-o, dê testemunho da sua fé, seja luz, manifeste Cristo, viva o reino! E se seu filho não é cristão ou está afastado do Senhor? O mesmo! Clame a Deus por misericórdia, humilhe-se diante Dele! Não desista de perseverar em clamar pela salvação e transformação do seu filho ou do seu pai. Deus é poderoso! Confie Nele! Tenha fé! 

Até aqui, querido leitor (ou leitora), falamos sobre a paternidade natural. Mas queremos lembrar a você de que nós, cristãos, temos um Pai Perfeito: Deus. E nosso Pai perfeito nos deu na vida da igreja não pais naturais, mas pais espirituais. Pessoas que, por serem guiadas pelo Espírito Santo, imitarem o viver de Cristo e estarem cheias do amor divino, cuidam de outras e as ajudam a amadurecer. Os pais espirituais não são o Pai nosso, mas eles manifestam a paternidade de Deus a nós e são mais uma prova do amor e cuidado que Deus tem para conosco. É sobre os pais espirituais que iremos falar a partir de agora. 

OS PAIS ESPIRITUAIS

Assim como em nosso viver natural os pais desempenham (ou deveriam desempenhar) um papel de nos ajudar a crescer e amadurecer, a vida cristã tem uma característica de maturidade semelhante. Em 1 João 2.12-14, podemos perceber um roteiro de crescimento e amadurecimento natural:

“Filhinhos, eu escrevo a vocês porque os seus pecados foram perdoados, graças ao nome de Jesus. Pais, eu escrevo a vocês porque conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu escrevo a vocês porque venceram o Maligno. Filhinhos, eu escrevi a vocês porque conhecem o Pai. Pais, eu escrevi a vocês porque conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu escrevi a vocês, porque são fortes, e em vocês a Palavra de Deus permanece, e vocês venceram o Maligno.”

Aqui, o apóstolo João se dirige a três tipos de pessoas e torna-se evidente que se tratam de três fases naturais da vida. De modo semelhante, vamos ver como a mesma sequência pode ser aplicada na vida espiritual. 

Começamos como filhinhos: ao compreender o evangelho e conhecer o Pai, somos perdoados, redimidos, amados e entramos numa família cristã chamada igreja. Depois nos tornamos jovens na fé, aprendemos a enfrentar provações e ser fortes pela Palavra que permanece em nós. Por fim, caso perseveremos na caminhada da fé, com mais maturidade, poderemos ser pais espirituais. Neste sentido, é importante ressaltar que não se trata de idade física, ou de tempo de conversão, mas sim de maturidade espiritual.

Na carta aos Coríntios, Paulo trata os membros da igreja como filhos amados e apresenta-se como pai espiritual exemplar. Você pode não ter filhos naturais, mas pode ser um pai espiritual, que revela a Paternidade de Deus.

A seguir, vamos listar alguns princípios sobre o assunto:

1 – O pai espiritual é aquele que gera filhos em Cristo (1 Co 4:15) 

a) Paulo diz: “Vocês podem ter muitos mestres que os ensinam, porém, não têm muitos pais”. É uma relação estreita, sentimental, familiar e íntima. “Eu sou o pai de vocês! Eu gerei vocês!”. 

b) Há pais que não geraram filhos biologicamente, mas geraram no coração. Os filhos espirituais também são gerados no coração. Essa relação é tão profunda e gloriosa que o próprio Deus, como exemplo da Paternidade perfeita, predestinou-nos para sermos Seus filhos maduros (Rm 8:14-16).

c) Aqueles que são pais naturais (biológicos ou não) devem gerar filhos duas vezes. Esta segunda se refere à gerá-los espiritualmente. Devem conduzir os filhos naturais à salvação em Cristo Jesus para que eles recebam a vida divina e nasçam espiritualmente. 

d) Aqueles que não têm filhos naturais não devem usar isso como desculpa para não serem pais espirituais. A Bíblia não relata que Paulo tenha gerado filhos biológicos, mas mostra que ele gerou muitos filhos espirituais para a glória de Deus.

2 – O pai espiritual é aquele que dá exemplo aos filhos (1 Co  4:16)

a) Pais ensinam aos filhos não apenas pelo que dizem, mas, sobretudo, pelo que fazem. Os filhos aprendem primeiro pelo exemplo, depois pelo que ouvem.

b) O exemplo não é apenas uma forma de ensinar, mas uma forma muito eficaz de fazê-lo. Paulo era exemplo para seus filhos, eles poderiam imitá-lo porque ele imitava a Cristo. (1 Co 4:15-16; 11:1). Pais espirituais são imitadores de Cristo e, como um espelho, refletem e revelam-No aos filhos na fé.

c) Os pais espirituais ensinam enquanto praticam, enquanto vivem a vida divina. Oram, santificam-se, são humildes,  servem, guardam as Escrituras no coração e as ensinam a todo momento enquanto caminham com Deus e com os filhos espirituais. Ensinar no caminho é andar junto, ensinar enquanto faz, ser referencial de maturidade (Dt 6:4-9).

3 – Um pai espiritual é aquele que corrige os filhos (1 Co 4:14, 15, 21) 

a) Pais espirituais têm autoridade para confrontar e corrigir os filhos – foi o que Paulo fez diversas vezes. 

b) Pais espirituais são conselheiros, amigos íntimos, companheiros de oração, desenvolvem comunhão e discipulado. 

c) Pais espirituais precisam conhecer bem a Palavra de Deus, para ensiná-la com segurança e para vivê-la de tal modo que influenciem seus filhos na fé. 

d)  País espirituais querem o bem de seus filhos, não que eles se percam. Por isso os corrigem, a fim de aprendam e não permaneçam nos erros ou pecados.

e) Pais espirituais não expõem seus filhos de forma humilhante, seja em particular,  seja em público; antes, ensinam com firmeza e corrigem com discernimento e temperança.

4 – O pai espiritual é aquele que ama e cuida bem de seus filhos (1 Co 4:19,21) 

a) Pais espirituais cuidam com afeto dos filhos. Disciplinam, mas consolam. Usam a vara, mas abraçam. Celebram com os filhos as vitórias e choram com eles as tristezas. Sabem o momento de exortar e o momento de encorajar. 

b) Pais espirituais são equilibrados em seu cuidado. Numa relação de paternidade natural, quando há disciplina sem afeto, cria-se filhos revoltados e amargurados; quando há afeto sem disciplina, cria-se filhos mimados e imaturos. Do mesmo modo ocorre com os pais e filhos espirituais. Disciplina sem afeto é brutalidade, afeto sem disciplina é irresponsabilidade. Há momento para tudo. 

c) Pais espirituais demonstram amor em palavras, ações e no uso do tempo. Eles se alegram quando veem os filhos espirituais e têm oportunidade de estar perto; verbalizam o amor que possuem, mas não de forma natural, carnal, pelo contrário, mostram que seu amor procede de Deus; dedicam tempo a ouvir e conhecer as dificuldades dos filhos espirituais e perseveram em oração para que permaneçam em Cristo, cresçam e amadureçam.

A SUA ATITUDE 

Alcançar a função da paternidade espiritual demanda amadurecimento. Porém temos o modelo do nosso Deus como Pai perfeito. Então busque aprender com Ele. Seja um pai espiritual para alguém. Conduza essa pessoa a salvação, manifeste Cristo a ela, ensine-a com as verdades bíblicas, caminhe junto, chore junto, corrija, exorte, console, conheça as dificuldades dela, cuide, estreite os laços, equilibre disciplina e afeto, persevere em oração por ela, demonstre amor que vem de Deus. No caso das irmãs, sejam mães espirituais

E se você conhece pais espirituais na igreja, seja grato a Deus por eles. Valorize o serviço de amor que eles têm. Aprenda pelo exemplo que vê. Receba as correções. Obedeça as orientações bíblicas que eles dão. Ame a disciplina. Busque passar tempo junto para ser ensinado. Demonstre afeto. Ame! Não seja indiferente. Lembrou de alguém? Aquele irmão que corrigiu você porque quer seu bem, aquele que o disciplinou porque o ama, aquele que fica feliz em estar com você e o ouve com atenção, aquele que pregou o evangelho a você, aquele que o consola com sabedoria, aquele que é modelo porque imita a Cristo… E então, lembrou-se? Você pode enviar este texto a eles como forma de agradecimento, que tal?

Esperamos que a partir deste texto você tenha uma atitude de gratidão aos irmãos que são pais espirituais, tenha sido encorajado e aplique os princípios que aprendeu. Também que a redenção que recebeu do Senhor alcance todas as áreas da sua vida, incluindo seu relacionamento com seu pai natural. E seja grato caso seu pai natural também tenha sido um pai espiritual. Por fim, lembre-se de que nenhum ser humano é perfeito, mas pela redenção a vida divina pode crescer em nós, santificar-nos da natureza pecaminosa e nos transformar. Para ser transformado, olhe para o Pai nosso – o Pai perfeito! – contemple-O, adore-O, conheça-O e, por fim, manifeste-O. 

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