Sobre a autora

Nascida no Condado de Putnan, Nova York, no ano de 1820, num lar cristão, Frances Jane Crosby, mais conhecida como Fanny Crosby, ficou cega quando tinha apenas seis semanas de vida. Acometida por forte resfriado, que causou irritação em seus olhos, Fanny foi levada pela mãe a um médico que passava um período na cidade. Este, porém, era charlatão e usou uma pomada que comprometeu a visão da pequena Fanny para sempre. Aqueles olhinhos, que há poucos dias haviam sido abertos, já não poderiam enxergar as lindas paisagens com que nos agraciou o Criador, nem os rostos das pessoas que mais os amavam: sua família. 

Fanny, entretanto, nunca permitiu que a deficiência visual a atrapalhasse e jamais reclamou. Ela estava certa de que, apesar de ter havido erro médico, não houve erro de Deus. Desde a mais tenra idade, ouviu o evangelho pela doce voz de sua avó paterna, aprendeu a confiar no Pai celeste e a amá-Lo sobre todas as coisas. 

Além do contato com as Escrituras, na infância, Fanny obteve familiaridade com literatura, conheceu escritos como os de Shakespeare e os hinos de Isaac Watts. Isso a ajudou a desenvolver habilidades como imaginação, memorização e percepção. Ela reconhecia flores pelo aroma, árvores pelos troncos, pássaros pelo canto e gostava de passar tempo ouvindo sons do vento, da chuva e dos trovões. Não pôde contemplar a criação com os olhos, mas o fez com os outros sentidos, emoção e imaginação. 

Fanny começou a escrever poemas aos oito anos, mas seu primeiro hino, Blessed assurance — Segurança abençoada — foi composto aos 40. Acredita-se que ela escreveu mais de nove mil hinos e muitos foram publicados com pseudônimos. (Para ler mais sobre Fanny e sobre o hino Segurança abençoada, clique aqui.) Abaixo estão algumas citações de declarações de Fanny Crosby:

“Creio que a maior bênção que o Criador me proporcionou foi quando permitiu que minha visão externa fosse fechada. Consagrou-me para a obra para a qual me fez. Nunca conheci o que é enxergar, e por isso não posso compreender minha perda. Mas tive sonhos maravilhosos. Tenho visto os mais belos olhos, os mais belos rostos e as paisagens mais singulares. Perder a visão não foi perda nenhuma para mim.”

“Parecia planejado pela providência santificada de Deus que eu deveria ser cega toda a minha vida, e eu Lhe agradeço a dádiva. Se visão terrestre perfeita me fosse concedida amanhã, eu não a aceitaria. Eu não poderia ter cantado hinos de louvor a Deus se eu estivesse distraída pelas coisas bonitas e interessantes ao redor.”

“Se eu tivesse tido a oportunidade de fazer apenas um pedido no dia em que nasci, pediria para ter nascido cega, pois quando eu chegasse ao céu o primeiro rosto que teria o prazer de contemplar seria o do meu Salvador.” 

Quando li estas citações, meus olhos encheram-se de lágrimas que imediatamente percorreram minha face. Oh! que sincero e singelo amor teve a senhora Crosby pelo Salvador! “Meu Senhor, dá-me tal amor por Ti!” foi o que meus lábios trêmulos conseguiram pronunciar.

À Fanny não foi concedida a visão terrena, física, que a mim foi, mas ela teve tão nítida visão celestial que teria sido capaz de abdicar da oportunidade de enxergar, se lhe fosse dada a opção. “Será que tenho essa fé?”   logo me questionei.  “Senhor, dá-me mais fé!” clamei! 

Fanny Crosby viu! Sim, ela viu! Enxergou o que é verdadeiro, o que não conseguimos ver com olhos carnais: ela viu o reino e contemplou Jesus face a face. Fanny viveu face a face com o Senhor e por isso compôs canções tão profundas e sensíveis, capazes de vencer a prova do tempo e tocar nosso coração hoje, séculos depois. Ela viu o que realmente importa e viveu por isso. Foi fiel à visão que recebeu. Meu anseio hoje é ver o que ela viu, ter os olhos celestiais que teve e desejar que meu Senhor amado volte logo para fitar Seu sublime rosto. 

“Senhor, não permitas que a visão terrestre roube meus olhos da visão real, a celestial. Ensina-me a andar na terra com os olhos nos céus. Lembra-me cada manhã da minha verdadeira pátria. Renova minha mente, aumenta minha fé, dá-me mais amor por Ti. Toma meu coração. Usa minha vida para levar Teu nome e apresentar Teu amor às pessoas. Àqueles que perecem, àqueles que se desviaram da Verdade, envia-me, Senhor!” essa é minha oração. Agora, podemos desfrutar da letra de um dos maravilhosos hinos escritos por Fanny Crosby. 

Sobre a história do hino Resgatar os que perecem 

Rescue the perishing — Resgatar os que perecem — foi escrito em 1869. Esse hino é consequência de uma experiência de oração de Fanny Crosby, que resultou na conversão de um jovem. 

Certo dia, Fanny estava preocupada com a situação espiritual de alguns homens alojados numa missão em Nova York, que trabalhavam numa plataforma. Ela sentiu que havia ali um filho que precisava ser resgatado porque se afastara dos ensinamentos cristãos recebidos por sua mãe. Então pediu que, se houvesse um jovem ali que se desviara de tais ensinamentos recebidos da mãe, que fosse procurá-la ao fim do dia. 

Ao cair da tarde, um rapaz foi procurá-la e disse que um dia gostaria de se encontrar com a mãe, já falecida, no céu (no entendimento dele, o céu era o lugar para onde iam os salvos). Todavia também disse saber que, de acordo com o modo como vivia, não seria possível. Esse jovem estava certo de que sua mãe cristã havia sido salva e tinha consciência de que ele não. Fanny, então, orou com o rapaz e, após a oração, ele se converteu ao Senhor e recebeu a justificação pela fé.

Ao voltar para casa naquela noite, veio à sua mente o verso: “Rescue the perishing”, palavras que havia escutado anos antes e se recordou naquele momento. Ela logo escreveu este verso e passou a escrever outros mais. Seu sentimento era tão forte que antes de dormir o hino já estava terminado. 

Passados 34 anos, numa ocasião em que foi falar diante da Associação Cristã de Moços (YMCA), contou a experiência que a levou a escrever esse hino. Fanny disse ter sido tocada como que por um acorde que fez vibrar em si notas de empatia e que isso é o que acontece quando a música é celestial. 

Logo após sua  palestra à Associação, um homem foi cumprimentá-la e disse-lhe que era aquele jovem a quem, anos antes, ela pregou e por quem havia orado para que recebesse a salvação. Que momento! Imagine como deve ter sido especial para a senhora Crosby, aos 83 anos, saber que que aquele outrora rapaz havia permanecido no Senhor. Deus a presenteou com esse encontro!

Sobre a letra do hino

Utilizaremos a versão traduzida do hinário “Hinos” da Editora Árvore da Vida. 

A letra de Resgatar os que perecem é direcionada a dizer qual é o dever cristão na sociedade secular. Todos os dias encontramos pessoas que estão perdidas, distantes do único que pode dar-lhes salvação: Cristo. Essas pessoas perecem enquanto caminham para a destruição. E que fazemos? 

Talvez não estejamos apercebidos e sensíveis para compreender que é nosso dever anunciar o evangelho a elas para que possam crer, converter-se e receber a salvação eterna. Deveria pulsar em nosso coração o desejo de que pecadores sejam resgatados da morte e recebam a vida eterna, assim como nós mesmos o fomos. 

Seja sincero, seu coração arde por levar pecadores à salvação? Quando as pessoas passam por você no dia a dia, você pensa que elas podem não conhecer o evangelho? Ao ver alguém longe de Cristo, você se enche de misericórdia e da certeza de que ele precisa do Senhor? Você consegue sentir a seriedade que é isso? Há em você indiferença ou rogo e choro pelos que perecem? Pelo que será que você tem chorado? Por coisas banais ou pelo que realmente importa: a lamentável condição do homem sem Deus e sua necessidade de salvação? 

Há também aqueles que se afastaram do Caminho depois de já terem recebido salvação. São filhos de Deus que escolheram viver de acordo com a velha natureza, os velhos costumes, o velho homem. Estes, sendo vivos, decidiram usar vestes de mortos e ser como tais. Você conhece alguém assim? Você tem parentes ou amigos que já foram salvos, mas hoje vivem em pecado, distantes de Deus? Há na sua igreja irmãos que caíram ou ainda estão caídos em pecado?

Quais têm sido suas ações para com eles? Compadeça-se! Chore por quem errou e ajude-os a levantar. Lembre-os de que não adianta procurar por satisfação fora de Cristo. Lembre-os de que uma vez vivos, não há mais como serem como mortos, ainda que usem as velhas vestes. Lembre-os de quem são: filhos de Deus.

Resgatar, livrar, erguer, dizer que a salvação está apenas em Cristo, essas devem ser as ações de todo cristão para com os perdidos e desviados.

“Resgata com amor 

Os que perecem, 

Para da morte e pecado os livrar; 

Chora por quem errou, 

Ergue os caídos, 

Diz-lhes que só Cristo pode salvar.” 

Você pode ainda ter desistido de orar pela conversão de alguém porque recebeu muita rejeição quando tentou levá-lo a Cristo. Não dê atenção a seus sentimentos de desânimo. Não desista; persevere em oração. Embora possa haver rejeição na pessoa, a salvação ocorre pela ação do Espírito Santo no momento certo… E Ele sabe o momento certo.

O poder do Espírito Santo não se limita à regeneração. Há Nele poder para, dentre outras coisas, segundo a misericórdia e bondade de Deus, conduzir aqueles que se afastaram de Cristo ao arrependimento. E em Cristo eles são acolhidos e recebem perdão. Você já deve ter ouvido testemunhos de irmãos que se afastaram do Senhor por um período, mas se voltaram a Ele. Aqueles que o Pai deu ao Filho, de modo nenhum serão lançados fora. 

Há poder na misericórdia do Pai, no sangue de Jesus e na ação do Espírito Santo. A nós cabe orar com fervor e falar com palavras sábias, verdadeiras, temperadas, cheias de amor. Isso é ter ternos afetos de misericórdia (Cl 3:12). Insista com fervor e com ternura!

“Neles há rejeição, 

Mas Cristo espera 

Para acolher quem se arrepender; 

Insiste com fervor 

E com ternura; 

Ele perdoa a todo o que crê.” 

E saiba que, embora o inimigo astuto e mentiroso possa ter feito você desanimar em anunciar o evangelho aos perdidos e desviados, recalcando (reprimindo) os sentimentos em você, a graça tem poder para saná-los. Assim, tal como ocorreu com Fanny, vibrarão em seu instrumento de cordas rotas — seu coração — acordes de empatia, compaixão, misericórdia. Isso acontecerá, pois a canção (o desejo de resgatar os perdidos) é celestial, emana do trono da graça e tocará você com o grande amor de Deus, que constrangerá você a também amar. 

“A graça sanará

Os sentimentos

Que recalcou em nós o tentador; 

De novo vibrarão 

As cordas rotas, 

Quando tocadas por tão grande amor.” 

As pessoas precisam ouvir a mensagem do evangelho para ter fé, pois a fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus. Mas como crerão se não há quem pregue? Cabe a nós, a mim e a você, pregar o evangelho a toda criatura. Esta é nossa grande comissão: Ide! É incumbência do cristão testemunhar a respeito da graça que recebeu e ser instrumento usado por Deus para que outros recebam vida. 

Você pode se sentir fraco e incapaz, mas não se amedronte nem se deixe vencer por esses sentimentos. Todos somos fracos e incapazes. Quem nos capacita e dá força para cumprir a incumbência é o próprio Senhor. Guiados pelo Espírito, seremos instrumentos nas mãos do Redentor, usados para que pecadores entrem e trilhem o Caminho estreito: Cristo, e sejam conduzidos à reconciliação com o Pai. Vamos! Anunciemos a todos que Jesus Se entregou, morreu e ressuscitou, para livrá-los da morte, dar-lhes vida e vida em abundância! 

“A todos resgatar 

É a incumbência; 

E para tal dá-nos força o Senhor; 

Faze-os retornar 

À senda estreita; 

Diz que por eles Jesus se entregou.”

É tempo para arrependimento. É tempo para mudar de atitude. Peça a Deus que lhe dê um coração de amor, que haja em você o mesmo sentimento que houve em Cristo. Persevere em oração! Lembre-se de que a canção que tem de tocar seu coração é celeste, é o grande amor de Deus que entregou Seu Filho para salvar pecadores. Só assim suas cordas rotas vibrarão e você se encherá de compaixão e misericórdia. Confie em Deus e experimente receber a força Dele para ser fiel à incumbência que recebeu. 

“Resgata com amor 

Os que perecem; 

Mercê e salvação 

Há em Jesus.”

Vídeo do hino

A seguir está um vídeo do hino Resgatar os que perecem, cuja letra é a tradução do hinário “Hinos” da Editora Árvore da Vida (a mesma usada anteriormente neste texto). O hino é cantado por David Mesquita numa melodia alternativa de sua autoria. 


Fontes:

Livro: As canções que abriram meus olhos, Filipe Figueiras, Editora 371, 1ª edição, 2018.

https://hymnary.org/text/rescue_the_perishing_care_for_the_dying

http://www.hymntime.com/tch/htm/r/e/s/rescuetp.htm

https://www.umcdiscipleship.org/resources/history-of-hymns-rescue-the-perishing-crosby

https://ministry127.com/resources/illustration/the-story-behind-rescue-the-perishing

 

Dedicatória

Alguns amigos meus têm singelo apreço pelo hino Resgatar os que perecem, em especial quando combinado com a melodia feita pelo David. Dedico o texto a eles: Dedé, João, Rad, Mário, Luane (de quem é impossível não me lembrar, porque ela sempre pede para cantar no CAIS), Gusta (que insistiu com fervor e ternura para a gravação e o texto saírem), Nana (a fotografia da imagem de capa é dela) e Paulo (que me emprestou o livro “As canções que abriram meus olhos”); ao David, em quem vibram acordes de uma canção celestial, tornando-o capaz de emitir frequências harmônicas que alcançam a todos que se aproximam dele, e quem me abriu os olhos para a beleza que é esse hino; e ao Marsh, que sempre me ajuda com textos, tem compaixão para chorar por quem errou, erguer os caídos e falar-lhes sobre a salvação, na qual se regozija. Queridos, que vocês nunca se esqueçam da comissão que o Senhor nos deu e de que Cristo espera para acolher quem se arrepender.