Ser produtivo sempre? Uma reflexão

Um dia desses, quando já estava indo dormir, me veio um pensamento: “Puxa, esse dia foi muito produtivo! Esse dia valeu por vários!”. Em seguida me veio à mente o verso de Salmos 84:10: “um dia nos teus átrios vale mais que mil”. Essas palavras me confrontaram. Parece que minha forma de avaliar o valor de um dia estava bastante equivocada!

Isso me fez refletir: por que avaliamos o valor de nossos dias dessa forma? Às vezes, até mesmo mais do que nossos dias. Muitos avaliam o próprio valor com base no que produzem.

Pessoas se sentem pressionadas para produzir e até mesmo culpadas quando se sentem improdutivas. Especialmente em tempos de isolamento social, muita gente se sente assim, ocupando todos os espaços de tempo com cursos online, aprendizados, exercícios físicos e atividades diversas.

Mas por que será que vivemos dessa forma? Como devemos medir o valor de nossas ocupações? Como avaliamos se a maneira como usamos nosso tempo está adequada? Como ser produtivo para a glória de Deus? Quero refletir, à luz da Bíblia, sobre uma outra forma para pensar nesses assuntos.

Ser produtivo para a glória de Deus

“Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.” 

(Mateus 5:16).

Boas obras manifestam nossa vida de intimidade com Cristo e são um testemunho para as pessoas ao nosso redor. Por isso precisamos nos dedicar com sabedoria a usar bem nosso tempo, para que sejamos praticantes de boas obras em nossas diversas ocupações: estudos, trabalho, relacionamentos, ações que tem como objetivo o bem do próximo e o bom uso das habilidades e recursos que Deus nos deu, para a glória de Seu nome.

Não fomos criados para ser “máquinas” de produtividade

Por outro lado, é importante ter consciência de nossa identidade. Deus criou o homem para glorificá-Lo, isto é, para adorá-Lo e manifestar Seu valor, e para ter um relacionamento com Ele (Ef 1:4-6, 11-12) . Somos feitos à imagem de Deus (Gn 1:27), o que é muito significativo, pois dessa forma todos os seres humanos possuem uma dignidade especial como representantes de Deus e devem ser, portanto, respeitados. 

Assim, não podemos tratar a nós mesmos e a outros como máquinas. Temos necessidades espirituais, emocionais e físicas, precisamos de momentos de descanso e lazer, temos fraquezas e limitações. Precisamos reconhecer isso e saber que Deus nos fez assim em sua sabedoria. Devemos cuidar de nós mesmos e reconhecer nossa dependência de Deus e de outras pessoas. Necessitamos, também, ter consciência de que elas também têm suas limitações, as quais podem ser bem diferentes das nossas. Assim, devemos ser compreensivos e não esperar de todos a mesma forma de produtividade. 

Se nós ou as pessoas à nossa volta vivemos de acordo com um conceito em que o ser humano é uma máquina para produzir coisas, estamos indo contra a visão bíblica. Fazer não vem antes de ser. O coração importa mais que as obras. Ele é, aliás, a fonte delas (1 Sm 16:7; Pv 4:23; Mt 15:18, 19). E a verdade mais preciosa que a Palavra traz sobre nós é que fomos criados para conhecer a Deus, adorá-Lo e viver com Ele (Is 43:7,10; Ef 1:4-6). Além disso, percebemos Seu grande amor no fato de Ele ter tornado a nós, os que cremos no evangelho, em Seus filhos (1 Jo 3:1)! Essa é uma verdade imutável, que se refere à nossa identidade em Cristo e traz muito consolo ao nosso coração. Isso é dado a nós gratuitamente. Não pode ser diminuído, nem aumentado pelo que fazemos. Podemos descansar nesse fato, que nos motiva a não viver com medo, pois temos segurança em Seu amor (Ef 2:8,9; Rm 8:15-16). Assim, nosso valor não está em nossas realizações, mas no amor Dele por nós.

Deus dá sentido ao trabalho

O livro de Eclesiastes questiona por diversas vezes qual é o sentido do trabalho. No capítulo 2, dos versos 21 a 23, ele pergunta o que as pessoas ganham como resultado de seu esforço, já que as riquezas que alcançam podem ficar para um descendente que não fará bom uso delas. Além disso ele fala que há esforço e ansiedade, que seus “dias de trabalho são cheios de dor e tristeza, e nem mesmo à noite sua mente descansa” (v. 23).

Mas o pregador prossegue:

Por isso, concluí que a melhor coisa a fazer é desfrutar a comida e a bebida e encontrar satisfação no trabalho. Percebi, então, que esses prazeres vêm da mão de Deus. Pois quem pode comer ou desfrutar algo sem ele? Deus concede sabedoria, conhecimento e alegria àqueles que lhe agradam.”

(Eclesiastes 2:24-26).

Ou seja, de que adianta trabalhar freneticamente se não há momentos de paz, nem se pode desfrutar das coisas boas dessa terra, nem ter satisfação no trabalho? E, além disso, essas coisas vêm de Deus. É Ele que nos concede esses momentos e recursos. É Ele que pode dar sentido a nossas atividades comuns. Então, estamos simplesmente correndo gananciosamente para ganhar algo, material ou não, como resultado de nosso esforços? Ou estamos sempre reconhecendo que é Deus que nos provê tudo o que temos, e que devemos ser gratos a Ele e desfrutar do cuidado que Ele nos concede de tantas formas?

O tempo da contemplação

O Salmo que citei no início fala sobre adoração. Adorar é contemplar, é ouvir a Palavra de Deus, meditar nela e admirá-Lo. Aparentemente não é uma atividade na qual se produz alguma coisa. Por isso a ideia de permanecer por um longo tempo, às vezes, em silêncio diante de Deus, pode ser muito estranha para mentes influenciadas por uma necessidade de produzir algo a todo momento. Mas a Palavra ensina que é exatamente o contrário! Essa é a atividade mais nobre possível, de valor inestimável.

O tempo de estar junto

Da mesma forma é o nosso relacionamento com Deus. Nossos relacionamentos humanos envolvem passar muito tempo com pessoas queridas conversando, tendo momentos de lazer, ou simplesmente fazendo companhia, ainda que sem palavras. Não se trata de fazer ou produzir algo, mas de estar junto. A concepção frenética de ser sempre produtivo afeta nossos relacionamentos. A tendência é preferirmos concluir uma atividade em que estamos trabalhando ao invés de dar atenção a alguém que precisa de nossa companhia. Creio que, neste caso, podemos perceber que estamos numa busca inadequada por produtividade.

Pessoas são mais importantes que coisas. É verdade que existem obrigações urgentes e podemos pedir para conversar outra hora. Mas e quando não é só nesses momentos? E quando produzir se torna um vício e não desejamos estar com as pessoas simplesmente desfrutando do momento, pois preferimos progredir em nossas tarefas?

Querer sempre ser produtivo pode gerar impaciência

A impaciência pode ser uma consequência desse vício. Vamos nos lembrar da instrução do Senhor:

“Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.”

(Mateus 5:41).

A obrigação relatada resulta em prejuízo para a pessoa que a recebe. Ela terá que andar com a outra por um longo caminho contra sua vontade. Para isso certamente é preciso paciência. Agora, imagine: se você está correndo para produzir algo, ansiando pelo momento em que ficará feliz por ter concluído a tarefa, e nesse momento chega alguém pedindo alguma ajuda naquele momento, como você reage? Com agressividade ou com mansidão? Creio que esse seja um pensamento útil para avaliar a postura do nosso coração em relação ao que estivermos trabalhando. Precisamos nos lembrar: paciência e mansidão são frutos do Espírito (Gl 5:22-23).

Servos fiéis no que Deus lhes confiou

Em tudo que fazemos devemos andar em fidelidade a Deus. Com Ele deve estar o compromisso do nosso coração. Ele nos chama a obedecê-lo em todas as áreas da nossa vida. Se andamos assim, estamos fazendo o que nos cabe, e sendo, portanto, verdadeiramente produtivos. 

Tal produtividade, buscando viver na presença de Deus e andar conforme as direções que Ele nos dá, dificilmente pode ser medida em números. Não é simplesmente como avaliar o nível de progresso de uma tarefa no trabalho. Antes, envolve ações diversas, em várias áreas da vida. 

Por exemplo, se trabalhamos para a glória de Deus, faremos nosso trabalho de forma bem feita. Mas também buscaremos desenvolver nossa vida devocional. Também cuidaremos das pessoas que o Senhor pôs à nossa volta. Participaremos de serviços na igreja, anunciaremos o evangelho e não deixaremos de cuidar de nossa saúde. Todos esses são chamados de Deus, pois o Senhor nos criou de forma que nossas vidas possuem diferentes aspectos e atividades! É por isso que não podemos tomar apenas um desses aspectos de maneira que gere prejuízo aos outros.

É claro, existem algumas direções que são especiais para cada filho de Deus (cf. 1 Co 12:4-7). Este deve buscar conhecê-las diante Dele e permanecer fiel a elas. Na parábola dos talentos (Mt 25:14-30), cada servo recebeu uma porção diferente para cuidar. Os que o fizeram bem, ouviram um elogio de seu senhor: “muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mt 25:23).

Conclusão

Cada um de nós deve, sim, buscar ser produtivo para a glória de Deus. Mas não podemos nos submeter a uma busca frenética ou a um vício em produtividade. Não é o que fazemos o que mais importa e nosso valor não está atrelado a isso.

Que Deus nos dê sabedoria para usar bem nosso tempo e recursos, cuidando de nossa saúde e das pessoas à nossa volta e, acima de tudo, nos dedicando à contemplação a Ele!


Aqui estão podcasts que me ajudaram a refletir sobre o assunto:
Fundamento e conceito cristão de produtividade
É sempre bom ser alguém muito produtivo?

 

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