Com um  coração alvoroçado e uma mente repleta de dúvidas, viu que não suportaria mais. Ansiava por uma fuga, desejava a paz, ficar longe de todos e de si mesma. Um dia já soube o que era paz. Provou um bocado com o seu Deus. Como  a deixou escapar? Era um lapso em sua memória. Mas não desistiu, tentou de tudo. Procurou os que pareciam tê-la, repetiu seus feitos e nada.

Até que um dia esse vazio motivou a fúria e na tentativa de cessar sua busca pela paz na fonte que [para ela] parecia seca, decidiu que iria tentar algo diferente:

  —     Deus, Você está demitido. Todo homem tem um deus, não é? Pois é, a responsabilidade de um deus é suprir as lacunas nas nossas vidas. Você não cumpriu com o seu dever como cumpri com o meu. Oficialmente, não te quero mais como meu Deus.

 Dona de si, foi à procura de um substituto mais competente para o cargo de seu deus. Não se agradou dos prazeres [era um deus irresponsável], nem das filosofias [era um deus incerto], nem do dinheiro [um deus traiçoeiro]… Até que se decidiu pela ciência. Era mais responsável que os prazeres, mais certeira que as ideologias [relapsa nas respostas], a sustentava no que ela precisava e muitas outras coisas.

 Certo dia, sua amada ciência mostrou fraquezas. Lacunas que não foram preenchidas. A tristeza voltou, a incerteza, a desconfiança… Com isso, começou a perceber quão incompleto seu deus era. Que sua paz era falsa, suas respostas eram frágeis e voláteis, sua confusão ainda estava ali, escondida por uma mera mudança de ângulo. E agora? Não restava nenhum outro deus digno do seu cargo.

 Consumida pela desilusão, adentrou o pranto. De repente, enquanto estava imersa em suas angústias, sentiu algo aconchegante ao redor de si. Era semelhante a alguma coisa que conhecia, mas seus olhos não conseguiam identificar… Ouviu uma voz acolhedora perguntar se ela queria ser ajudada. Respondeu afirmativamente ao ver sua condição lastimável.

Sentiu que era carregada para algum lugar. Assim que pararam, esse Conhecido passou algo em seus olhos. Não sabia o que era, mas não cheirava bem. Ele impôs as mãos sobre ela e perguntou-lhe: “Vês alguma coisa?” Ela esfregou os olhos e viu um rosto disforme.

 Mesmo sem clareza, ela entendeu, percebeu Quem era. Ele impôs as mãos nos olhos dela novamente e ao tirar, ela conseguiu vê-Lo. De imediato, pôs-se a chorar e pedir perdão. Ele a abraçou e ali mesmo ela sentiu. Ela reencontrou a paz.

Queridos leitores, essa narrativa é baseada em Marcos 8:22-26. Essa passagem, retrata a história da cura de um cego de Betsaida. Em resumo, Jesus o retira da aldeia, aplica saliva nos olhos do homem e, após impor as mãos sobre esse cego duas vezes, ele é curado completamente. Ao final, o Senhor recomenda a ele que não entre mais na aldeia. A princípio, é importante lembrar que a aldeia Betsaida foi repreendida por Jesus porque era um lugar onde não havia arrependimento (Mt 11:20-21). Ainda que bem próximo a essa aldeia aconteceram muitos sermões e milagres de Jesus, mas o orgulho e a incredulidade cegaram os olhos dos moradores da aldeia para Cristo.

As aldeias são construções humanas e, nesse caso, construções que levam à incredulidade. A personagem da narrativa construiu uma aldeia de egocentrismo. Transformou até mesmo a obra de Cristo em um currículo para que ela aceitasse ou não a Jesus como seu deus. Declarou-se dona de sua própria vida ainda que tenha sido comprada por Cristo. Colocou Deus em uma posição secundária, subserviente a si e declarou que nada do que Ele fez tem realidade, que ela mesma é quem possuía total controle de si. Ignorou a graça, esqueceu-se que a escolha foi feita por Deus e que o único motivo pelo qual ela podia amá-Lo era porque Ele a amou primeiro (1 Jo 4:19). Nunca passou por isso?  Não se engane, há muitas outras aldeias.

Tomados por nossas mentiras, somos compelidos a construir aldeias e perder a visão clara do Criador. Ainda durante a construção, nos distraímos em construções lógicas, prazeres momentâneos, mas quando a turbidez dos nossos olhos se transforma em plenas trevas, quando já não há paz ou a presença Dele é que percebemos o vazio. Aldeias são construídas em nossa mente e acabam por nos separar de Deus. Para a personagem, foi a ciência. Contudo, ciência é um material que podemos (ou não) utilizar para construir uma aldeia, a decisão de fazer das coisas que temos nossos materiais de construção depende de nós.

Além disso, o cego de Betsaida já tinha ouvido falar de Jesus. Por isso rogou para que Cristo o tocasse. Sim, durante nossa caminhada cristã, muitos fundamentos serão lançados diante de nós para que novas aldeias sejam construídas e nem sempre estaremos com uma visão límpida o suficiente para desviar de cada um. Como manter nossa visão ou restaurá-la quando já não vemos mais? A saliva, o que saiu da boca do Salvador, foi o que restaurou o cego de Betsaida e ainda é o que restaura os cegos ao saírem de suas aldeias. Essa saliva representa a palavra de Deus, a cura. Apegue-se a palavra, olhe fixamente só para Cristo e as mentiras não serão capazes de te tirar a visão.

Está em uma aldeia agora? Marcos relata que esse cego clamou para que Cristo aparecesse diante dele e o salvasse. Que tal tomar a palavra de Deus e clamar para que seus olhos voltem a ver? O nosso Senhor certamente estará à sua espera para tirá-lo de suas aldeias.

Que Deus os abençoe imensamente e a palavra de Deus nunca se ausente na vida de cada um!

 

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