Aproveitando este primeiro semestre, momento de preparação inicial para os principais vestibulares ou de redefinição das escolhas profissionais, o “Eu vos escrevi” entrevistou o irmão Miguel Ma para ajudar-nos nesse assunto, ao mesmo tempo, tão delicado e tão angustiante. Essa entrevista procurou trilhar as principais preocupações dos que ainda estão se preparando para ingressar no mercado de trabalho, a começar pela definição do curso e chegando até mesmo naquelas situações em que se está em dúvida se continua um curso ou desiste. 

Miguel é engenheiro eletricista de formação, mas dedica-se há muito ao agronegócio. 

Publicaremos a entrevista em duas partes. Confira abaixo o primeiro bloco de perguntas.

INÍCIO DA PARTE 1


EVE: Como foi a escolha da sua profissão? Você teve ajuda de seus pais ou irmãos na escolha?

Miguel: Claro! Eu tinha certas preferências, mas não eram preferências definitivas, porque eu gostava de muitas áreas, eu gostava bastante de estudar. Meu irmão mais velho, Ezra, tinha feito Engenharia Eletrônica, daí conversando com ele decidi que faria Engenharia Elétrica, porque ficaria como um complemento e, quem sabe um dia, poderíamos tocar alguma coisa juntos. Mas meus pais nunca me pressionaram em um ou outro sentido. Eu que tinha traçado um plano. Mas não era o plano de Deus. Por outro lado, foi muito bom ter estudado engenharia, porque a faculdade ajuda a gente a ter discernimento de muitas coisas, dá o bom senso, dá uma formação humana, mas o importante é que nossa vida está nas mãos de Deus e é isso que a gente precisa ver.

 

EVE: Alguns pais acabam escolhendo pelos filhos. Como o filho deve lidar com essa situação? Ele deve obedecer cegamente aos pais?

Miguel: O meu pai gostava da Engenharia, mas ele foi estudar Administração. Por quê? Porque meu avô pediu, porque era uma necessidade que havia, mas nem por isso foi alguém frustrado. A questão é: nós devemos sempre estar abertos para comunhão, porque, na verdade, como jovens temos uma ideia do que seja “profissão”, mas o que realmente nós vamos encontrar no percurso pode ser uma coisa totalmente diferente. Para mim, sempre devemos conversar com as pessoas, sempre devemos estar abertos para o diálogo, principalmente com os nossos pais, porque nossos pais nos conhecem. Muitas vezes, o jovem é um sonhador, ele não é prático. Então o diálogo, em especial, com os pais é muito importante. Agora, os pais devem também ter um sentimento de ajudar o filho na escolha, nunca deve ser uma imposição. Por quê? Porque a vida é do filho, o futuro é dele. Mas os pais devem falar para os filhos como eles veem as coisas.

Assim, a questão não é de obedecer cegamente. Você tem de saber: “Se eu não fizer o que meu pai está pedindo, quais são as consequências?”. Você deve levar isso em oração diante do Senhor. De repente, você pode orar: “Senhor, eu vou obedecer meus pais. Você sabe que eu não gostaria, mas eu vou obedecer, eu vou fazer”. Não necessariamente você será um profissional frustrado, porque os pais nunca pedem algo que eles consideram ruim para os filhos. Talvez, Deus crie no futuro uma oportunidade de o filho fazer o que gosta, mas também está fazendo o que o pai pediu. Tudo depende do coração. Não é uma questão de obedecer cegamente. Nós temos que saber também das consequências. Tem de pesar tudo isso diante do Senhor. Tudo isso deve ser levado em oração.

 

EVE: Existem profissões melhores do que outras do ponto de vista espiritual?

 – Miguel: Sim, depende muito também da situação de cada irmão. Por exemplo, na área de direito, sendo advogado. Alguns advogados têm de defender o cliente, aí o cliente diz assim: “Eu matei, agora você tem de me defender. Você tem de provar que eu não matei, você vai dizer que eu não matei”. E você sabe que ele matou, você pode ser um bom advogado e provar que ele não matou, mas e a sua consciência? Nem todos aguentam isso. Então tem diferença. Depois, há outras profissões que podem não ser tão tradicionais e mesmo estar relacionadas com a liberação do corpo e tudo o mais. Mas mesmo elas podem ser direcionadas para um aspecto espiritual; você pode aprender essas coisas e aplicá-las para outros fins. Por exemplo, têm irmãos que se formaram em Artes Cênicas e, hoje, servem na vida da igreja normalmente. Eles não aplicaram para o mundo, segundo o curso desse mundo; eles aplicaram para servir a Deus e isso torna-se algo útil.

 

EVE: O que significa servir o Senhor com a profissão?

– Miguel: Muitos dizem que querem servir o Senhor com a profissão, mas não sabem o que significa. Significa, antes de tudo, que eu sou um servo de Deus. Esta é minha profissão principal: servir a Deus. Posso ser engenheiro, posso ser médico, mas tudo o que eu faço é o Senhor quem comanda, que me abençoa e tudo que eu faço deve ser para o reino. Isso quer dizer que o dinheiro que ganho é do Senhor. Ele tem que me dizer como usar o dinheiro. Isso é servir o Senhor com a profissão. O que eu não posso é dizer: “minha profissão é minha profissão, meu trabalho é meu trabalho, minha empresa é minha empresa, Deus é outra coisa”. Se você serve o Senhor, tudo é Dele. Além do mais, quero desfazer um mito: para servir o Senhor não é preciso abandonar tudo, deixar sonhos de lado. Servir o Senhor é algo muito simples, é seguir o Senhor. Você pode estar estudando, pode estar trabalhando, e seguindo o Senhor. Não quer dizer que você tem de abandonar tudo. Agora, quando Deus chama para você abandonar, você abandona. Porque Deus mandou, Deus chamou. Deus disse: “deixa aquilo de lado, isso é muito mais importante”. Você teve uma mudança de rumo. Por quê? Porque Deus falou com você. Isso é algo muito simples.

EVE:  Vamos agora supor uma situação: o filho tem o sentimento de se entregar para servir o Senhor, mas a família, crente ou não, é contra. Como um jovem deve tratar com essa situação?

 – Miguel: Aí entra a questão do testemunho. Para alguém sair e servir em tempo integral é importante ter um sentimento pessoal, a aprovação da família e aprovação dos irmãos. Certo? “Ok, meus pais não creem no Senhor, querem que eu conclua os estudos. Então, devo concluir meus estudos”.

Eu vou dizer uma coisa: chamado de Deus tem seu tempo. Muitos jovens já falaram: “Irmão Miguel, eu gostaria de servir o Senhor em tempo integral!”. Eu digo para eles: “Estude, irmão. Estude, porque se depois do estudo esse chamado continuar, você, depois de formado, vai ser bem mais útil, porque ninguém vai falar para você: ‘não conseguiu fazer nada, foi ser pastor’”. Entendeu como é? Devemos ser o tipo de pessoa que quando dissermos: “estou servindo em tempo integral”, o mundo diga assim: “que desperdício, um cara tão capaz!”. E quando pregamos o evangelho o peso é diferente. Eu preguei o evangelho para algumas pessoas e uma delas me disse assim: “Miguel, eu só estou sentado e ouvindo aqui, porque te respeito. Pode falar, eu te respeito. Se fosse uma outra pessoa, ia mandar parar”. Nós, no meio de autoridades, falamos de Deus. Ninguém diz assim: “esse aqui é um pobre ignorante, ainda acredita em Deus”. Imagine perguntarem para você qual sua formação e você responder, por exemplo, que tem doutorado, mas deixou tudo para servir o Senhor. O sentimento da outra pessoa quando ouve não é diferente? Essas coisas pesam bastante! Nós devemos ver o seguinte: o fato de você estudar, não quer dizer que você se torne inútil para Deus. Você pode ser um bom estudante e muito útil nas mãos de Deus.

 

EVE:  Alguns jovens separam um período da faculdade e vão servir durante aquele período, mas há outros que não têm esse chamamento e alguns irmãos ficam pressionando. O que o senhor pensa a respeito?

 – Miguel: Nunca deve haver pressão. Isso aí tem de ser chamamento. Se você faz algo sem chamamento, primeiro, você desiste no meio do caminho; segundo, você vai culpar os outros pelo resto da vida pela sua falta de sucesso. Você entende o que eu quero dizer?

FIM DA PARTE 1

Quando um jovem escolhe uma profissão, ele se baseia em vantagens e desvantagens. Quando entregamos para o Senhor, não consideramos vantagens ou desvantagens, só queremos saber de uma coisa: é ou não é a vontade de Deus? Se é a vontade de Deus e, aparentemente, é tudo desvantagem, vou escolher essa mesma. “Mas é só desvantagem!” – não escolhi porque é vantagem ou desvantagem, escolhi porque essa é a vontade de Deus para minha vida  (Miguel Ma).

Encerramos, aqui, o primeiro bloco de perguntas da nossa entrevista ao irmão Miguel Ma. Se você gostou, compartilhe com seus amigos para que eles também sejam edificados.

Não perca a segunda parte da entrevista. Confira aqui.

Entrevista realizada por Mário Guazzeli Freitas e Carolina Lacerda.

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