O que o escritor de Hebreus quer dizer quando afirma que os cristãos “provaram (…) os poderes do mundo vindouro” (Hb 6:5)? Sabemos que haverá uma época futura pela qual aguardamos. O livro de Apocalipse no traz algo a respeito: o reino do mundo passará a ser de nosso Senhor e do Seu Cristo (Ap 11:15). Precisamos estar claros da existência de algo futuro que haverá de ser manifestado. Sendo assim, do que se tratam esses poderes relatados no livro de Hebreus? A palavra provar nos remete a algo subjetivamente experimentado. Esses poderes são a prévia de um banquete que, no presente, desfrutamos somente um pouco.

Poderíamos fazer uma lista das coisas que a Bíblia relata a respeito disso:

  • Há uma “salvação a ser revelada no último tempo” (1 Pe 1:5);
  • Há um novo aspecto da vida eterna no mundo por vir (cf. Lc 18:30);
  • Have­rá um tempo em que todos conhecerão ao Senhor “desde o menor até ao maior” (Jr 31:34; Hb 8:11);
  • E quando diz que “a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (Is 11:9).

De todas essas coisas temos, agora, um real antegozo em Cristo, mas não as vemos em sua totalidade.

A epístola aos Hebreus aplica ao nosso Senhor Jesus as palavras do Salmo 8: “Todas as coisas sujeitaste debaixo do seus pés” e, mais adiante, nos conduz ao que falamos anteriormente: “ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas” (Hb 2:8). Ao lado dessas afirmações contrastantes, devemos inserir as palavras de Jesus no evangelho de Lucas onde Ele concede aos Seus discípulos “autoridade (…) sobre todo o poder do inimigo” (10:19). Certamente isso nos promete um antegozo atual daquele dia futuro que ainda não vemos.

O propósito eterno de Deus está ligado ao homem. “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, disse Ele, “e tenha ele domínio” (Gn 1:26). Deus pretendia que o homem exercesse poder para reinar, governar, controlar as demais coisas criadas. É interessante notar as expressões presentes no capítulo 1 de Gênesis. O homem deverá ter domínio “sobre toda a terra”, e isso ainda é ampliado para cobrir, entre outras coisas, “todos os répteis da terra” (v. 26). Mas, no caso, a primeira coisa que o homem falhou em controlar foi um animal rastejante, uma serpente. E, pelo fracasso do homem, Satanás obteve direitos legais sobre a terra. O inimigo de Deus assegurou um direito claro de posse sobre tudo o que por nascimento natural o homem tem e é. A vida humana natural é a base da atividade de Satanás sobre a terra. O mundo de Satanás encontra sua força nos seus direitos sobre o homem, e até mesmo Deus não disputa esses direitos. Ele adquiriu, pela falha de Adão, um direito de posse total sobre tudo o que é da velha criação.

Deus trata, assim, dessa situação pela redenção. Louvado seja o Senhor! O apóstolo Paulo insere esse fato na sua epístola aos Romanos: “Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos” (Rm 6:6). Satanás não tem mais nenhum direito sobre nós. Deus não só removeu tudo o que estava no caminho do seu propósito eterno, como a velha criação; Ele também preparou tudo o que é necessário para realizar esse propósito, trazendo em cena o Seu novo homem. “Sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele” (v. 9). O propósito revelado em Gênesis 1 e perdido em Gênesis 3 foi reencontrado.

No livro de Hebreus o autor cita o trecho do salmista: “Que é o homem, que dele te lembres? Ou o filho do homem, que o visites? (…) De gló­ria e de honra o coroaste”. Assim, ele cita o salmo e en­tão exclama: “Vemos, todavia (…) Jesus (…) coroado” (Sl 8:4-6; Hb 2:6, 9)! Se a criação da humanidade devia preencher a necessidade de Deus, essa necessidade foi agora finalmente preenchida. Deus conseguiu o Seu Homem. O salmo 8 fala sobre o plano de Deus para a humanidade, mas o fato significativo é que, apesar da queda, o cantor não se desvia. Ele apenas reafirma o plano original de Gênesis 1: “Sob seus pés tudo lhe puseste” (v. 6). Nada mudou. Além disso, ele não só começa, mas termina seu cântico com a exclamação de louvor: “Quão magnífico em toda a terra é o Teu nome!” (v. 9).

O inimigo conseguiu o seu mal: o homem foi preso na armadilha para blasfemar Deus. E se você ou eu tivéssemos escrito esse salmo, nós certamente teríamos acrescentado ao versículo 8 um grito de angústia: “Mas, ai de nós, o homem caiu: tudo está perdido!” O salmista não age assim; é como se ele tivesse esquecido completamente da queda, pois nem sequer a menciona. Ele salta em pensamento por sobre toda a história até a redenção, e grita novamente: “Quão magnífico!” Adão e Eva caíram, mas não puderam alterar o propósito de Deus de que o homem iria finalmente derrotar o poder de Satanás. Seu propósito permanece inalterado, e sua excelência necessita ser conhecida. Onde? Em toda a terra.

Deus não abandonou Seu alvo! Antes disso, do ponto de vista do escritor, além do triunfo na cruz, Ele pode confiantemente reafirmar a confissão de fé do salmista. Assim, longe de estar tudo perdido, é correto afirmar que em Cristo o final foi assegurado. O Evangelho é necessário para preencher a necessidade do homem. Mas se, como servos de Deus, estamos apenas trabalhando por outros, estamos perdendo o primeiro alvo de Deus na criação, que era suprir não só a necessidade do homem, mas a Sua própria.

Sem ser absolutos para com Deus, nada pode ser conseguido, pois assim O fazemos impotente contra Seu inimigo. Estamos você e eu aqui na terra, totalmente submissos, totalmente entregues ao próprio Deus? E porque é assim, estamos agora mesmo experimentando os poderes daquela futura época gloriosa? Estamos requerendo o território do príncipe deste mundo para Aquele a quem, por direito, pertence?

Artigo inspirado no livro Não Ameis o Mundo, de Watchman Nee, Editora dos Clássicos (2008).
Artigos da série:

A Mente Por Trás do Sistema – Série “Não Ameis o Mundo” (1)

Tendência Oposta a Deus – Série “Não Ameis o Mundo” (2)

Um Mundo Sob a Água – Série “Não Ameis o Mundo” (3)

Crucificado para Mim – Série “Não Ameis o Mundo” (4)

Diferenciação do Mundo – Série “Não Ameis o Mundo” (5)

Luzes no Mundo – Série “Não Ameis o Mundo” (6)‏

Desapego – Série “Não Ameis o Mundo” (7)

O Refrigério Mútuo – Série “Não Ameis o Mundo” (8)

Minhas Leis em Seus Corações – Série “Não Ameis o Mundo” (9)

Os Poderes do Mundo Vindouro – Série “Não Ameis o Mundo” (10)

Roubando o Usurpador – Série “Não Ameis o Mundo” (11)

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